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A polêmica do amianto


A polêmica do amianto continua

por Mônica Carvalho Costa

Há mais de duas décadas a polêmica do amianto (palavra de origem latina) ou asbesto (de origem grega) continua gerando indagação. Muitas pessoas ainda desconhecem a questão que envolve milhares de trabalhadores enfermos por causa da inalação da fibra mineral natural apontada como cancerígena. Em todo o mundo as iniciativas políticas e não-governamentais contribuíram no avanço das pesquisas e nos programas de auxílios às vítimas, mas ainda há muito por se fazer.

Mais de 40 países já proibiram o uso geral de toda forma de amianto como França, Itália e Alemanha. No Japão, o grande número de pessoas contaminadas nos últimos anos forçou o governo a anunciar o banimento total do amianto para até 2008. Somente nos seis primeiros meses de 2005, foram registrados mais de 370 óbitos e quase um milhão de pessoas foi qualificado para receber benefícios do governo por causa das doenças do amianto. Casos de não-trabalhadores contaminados, ou seja, pessoas que eram apenas moradores em áreas de grande concentração de amianto, também deixaram os órgãos governamentais japoneses em alerta.

Estima-se em 100 mil o número de mortes em todo mundo, milhares de casos de câncer de pulmão, mesotelioma e asbestose, decorrentes da exposição à poeira do amianto. Intervenções em fábricas brasileiras revelaram dezenas de trabalhadores doentes que desconheciam os seus diagnósticos. O Brasil é o terceiro maior produtor do mundo, superado apenas pela Rússia e pelo Canadá, produzindo cerca de 250 mil toneladas por ano. A professora de Sociologia no Trabalho Lucila Scavone, autora da pesquisa Amianto e suas conseqüências sócio-familiares, um trabalho realizado no Brasil entre os anos de 1995 a 1997 e financiado pelos institutos Inserm (França) e CNPQ (Brasil), revelou: "Um cidadão americano se expõe ao amianto, em média, a 100 gramas ao ano, enquanto um canadense a 500 g/ano e um brasileiro, mais ou menos a 1.400 g/ano".

Pesquisadores e cientistas dizem que a situação é preocupante, pois de um lado estão o perigo e a necessidade de intervir no uso do amianto e por outro, a cara substituição da fibra por material ainda desconhecido em seus efeitos. Segundo os especialistas, o período de latência entre a exposição ao amianto e a ocorrência de cânceres ou outras patologias é longo, entre 15 e 30 anos. Isso explica o grande número de casos que surgiram somente nos últimos tempos, após tantos anos de uso da fibra mineral.

Por ser um material relativamente barato, de fácil extração e com uma estrutura fibrosa que o torna praticamente indestrutível, o amianto tem sido largamente utilizado h á mais de 60 anos. S uas qualidades especiais como resistência ao fogo, ao ataque químico e biológico, leveza e durabilidade, fizeram com que a fibra fosse incorporada em diversos produtos. Telhas, caixas d'água, guarnições de freios, revestimento de discos de embreagem, vestimentas especiais, materiais plásticos reforçados, tintas, pisos vinílicos, indústria aeroespacial e até aparelhos domésticos como refrigeradores e bicicletas, fazem parte da lista de produtos que contém amianto.

Metade dos telhados no Brasil e cerca de 5 milhões de casas no Japão (cerca de 20%), possui telhas com asbesto. Ainda no arquipélago, ele foi usado em muitas construções como isolamento, proteção de fogo, absorção acústica e reforço no cimento. Segundo os especialistas, o perigo está nas telhas ou outro material que contenha amianto liberarem a substância quando danificadas ou destruídas. Para evitar esse problema, os peritos estão usando métodos especiais nas demolições e nas reformas dos muitos prédios espalhados pelo país.

A reforma foi a estratégia usada pela pequena cidade de Higashiura, a 30 minutos de Nagoya, para retirar o asbesto de duas creches do bairro Ishihama. O lugar com grande concentração de brasileiros viveu dia de expectativa e mudanças após os moradores serem surpreendidos pela notícia. Foram encontrado asbesto no teto das principais repartições das Creches Ishihama e Ishihama Nishi, respectivamente com 290 e 187 crianças. Sendo a primeira, a que possui maior número de crianças brasileiras.

O plano de emergência da prefeitura para retirada das crianças dos prédios contaminados deixou alguns pais apreensivos, pois, a mudança afetou a rotina das escolas, das mães e dos pequenos. Algumas crianças foram para outras creches do bairro, uma parte ficou em casa com os pais e a maioria foi transferida para creches provisórias em locais públicos, como o ¨Jidoouka¨ (Centro de Lazer Infantil ou Clube da Criança) e o ¨Bunka Center¨ (Centro Social). Até mesmo o Centro de atendimento a idosos tem servido de palco para atividades das crianças.

Absorção pelo ar
A absorção de amianto pelo organismo depende de alguns fatores:

Tamanho da fibra - basta respirar a poeira de amianto que contenha fibras de tamanho suficientemente pequeno (3 micra de diâmetro e de 5 a 200 micra de comprimento) que atinjam os alvéolos pulmonares, para que se inicie o processo de adoecimento.
Biopersistência - o dano pulmonar só é causado quando a fibra penetra e permanece nos alvéolos, o que ocorre com mais facilidade se a fibra for do tipo anfibólio (rígidas e pontiagudas) e com menos facilidade, se a fibra for do tipo crisotila (maleáveis e curvas).
Concentração - quanto maior o número de fibras de amianto presentes no ambiente, maior é a probabilidade do indivíduo inalar estas partículas. Quando a exposição é freqüente, como numa jornada diária de trabalho de 8 horas, e dependendo do tipo de fibra, não serão necessários muitos anos para que o trabalhador desenvolva alguma doença respiratória.
Tempo de exposição - estudos demonstram que o câncer de pulmão ou o mesotelioma se manifestam, em média, após 15 anos de exposição.


Absorção pela água
Segundo vários estudos, a ingestão de fibras de amianto presentes na água ou em outros líquidos não parece representar qualquer risco para o desenvolvimento de câncer em órgãos como laringe, estômago, intestinos e rins.
Os níveis de amianto situam-se na faixa de 200 mil a 2 milhões de fibras por litro, o que corresponde a uma concentração de 0,005 mg/l. Estas quantidades podem aumentar, se na região houver nascentes próximas a rochas amiantíferas.
A utilização de caixas d'água e tubulações produzidas com amianto aparentemente não causam danos à saúde de quem consome a água.
Em 1992, a agência de proteção ambiental americana EPA (Environmental Protection Agency) determinou que o amianto não é classificado como carcinógeno nas normas para água, e, em 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reafirmou que não há qualquer evidência de que o amianto ingerido seja perigoso à saúde.

Principais doenças causadas pelo amianto

Asbestose - é a mais freqüente entre as enfermidades fatais. As fibras do amianto alojam-se nos alvéolos e comprometem a capacidade respiratória. É crônica, progressiva e para ela não existe tratamento. O doente sente falta de ar e cansaço excessivo.

Câncer de Pulmão - a exposição ao amianto aumenta em até dez vezes o risco da doença. O paciente sente falta de ar, emagrece e tem dor no peito. É um tipo agressivo de tumor, que costuma espalhar-se pelos rins, os ossos e o cérebro. O tratamento é feito com radioterapia, quimioterapia ou cirurgia.

Mesotelioma - câncer da membrana que envolve os pulmões (pleura). Só é causado pelo amianto. O paciente sente falta de ar e dor aguda no peito. O tratamento é o mesmo do câncer de pulmão, mas a cura é mais difícil. A sobrevida após o diagnóstico é de dois anos.

Placas Pleurais - surgem nas pleuras e são benignas. Não há sintomas nem tratamento. O doente corre três vezes mais risco de sofrer de asbestose e dez vezes mais de ter mesotelioma.

  • fonte: Ministério da Saúde do Brasil e Kyodo News
  • foto: Creche Ishihama Nishi fechada

 

 

 

 

 

 

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