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Brasileiros x Japoneses


Brasileiros e japoneses falam de diferenças e solidariedade

por Mônica Carvalho Costa

Nessa odisséia que já dura 100 anos, Brasil e Japão se aventuraram por caminhos de descobertas, transformações, mudanças e desafios emergentes. Contudo, no que diz respeito às relações humanas, brasileiros e japoneses ainda precisam de mais tempo para superar alguns conflitos e vivenciar a tão sonhada integração. A resposta pode estar nas mãos da nova geração.

Para o diretor da Associação Amigos do Brasil, Edilson Kinjo , 46, Gifu, os brasileiros estão conquistando seu espaço apesar das dificuldades, porém, mudanças mais significativas acontecerão quando os pequenos de hoje se tornarem adultos conscientes amanhã. ¨A integração se dará através das crianças estrangeiras que estudando o idioma, compreendendo melhor a cultura e se integrando na sociedade poderão trazer um aspecto mais balanceado a essa relação, nem tanto brasileira nem tanto japonesa¨, argumenta.

Kinjo acredita que os jovens, com oportunidade na escola, contribuirão para quebrar barreiras que ainda resistem. ¨O Japão tem dificuldade na aceitação dos estrangeiros. O conceito antecipado de que tudo que o estrangeiro faz é ruim precisa ser revisto. Falta ao povo japonês um esclarecimento maior sobre o porquê estamos aqui e o que fazemos nesta terra¨.

Na Associação Amigos do Brasil, NPO que trabalha na área de educação na região de Minokamo, as crianças assistidas estão percebendo a necessidade de se posicionarem como instrumentos de apoio e ajuda à comunidade. De acordo com o diretor, quando são interpeladas sobre o que desejam ser quando crescer a resposta é ¨tsuyako¨ (tradutor). ¨Eles estão percebendo que a vida não é fácil e estão crescendo com uma postura de querer ajudar. Isso é muito positivo¨, afirma Kinjo.

As crianças e adolescentes também são a chave para mudança de pensamento, segundo a visão da voluntária, Michiko Isomura, 61, Aichi . Líder do Grupo de Voluntários para Prevenção de Calamidades de Higashiura, Isomura iniciou um projeto pioneiro com estudantes estrangeiros do ginásio e colegial para serem tradutores em programas de prevenção. Ela explica que, por não saber o idioma, o estrangeiro é colocado na lista dos que precisam ser ajudados. No entanto, se houverem tradutores o estrangeiro poderá passar do grupo daqueles que possuem alguma dificuldade para o grupo dos que podem socorrer.

¨Em 2007, na reunião mais importante do ano que reúne voluntários do país inteiro, uma adolescente brasileira levantou-se e discursou: Ao invés dos japoneses fazerem tudo por nós, façam com que nós brasileiros fiquemos com vontade de fazer alguma coisa . A menina foi aplaudida de pé por centenas de japoneses que se surpreenderam com essa palavra¨, conta Isomura.

Para a voluntária japonesa essa é uma grande conquista. Há 11 anos, quando se propôs ajudar aos brasileiros não mediu esforços, mas, sofreu com algumas diferenças culturais. ¨O mais difícil para mim foi me acostumar com a questão do horário. Os japoneses levam muito a sério a pontualidade e os brasileiros ficam à vontade com isso. Sentia dores no estômago, na ansiedade de ficar esperando por alguém. Hoje fico tranquila¨, lembra sorrindo.

Quando dava aulas de nihon-go para estrangeiros, Isomura aprendeu uma outra lição - ¨Eu percebi que os brasileiros são sinceros com seus próprios sentimentos. Para eles se o tempo está bom e querem passear, vão passear, se está chovendo e não querem se molhar deixam isso claro. Seria bom se os japoneses não forçassem tanto, não exigissem que alguém faça o que não quer só porque foi marcado um compromisso¨.

Por outro lado, ela espera que brasileiros também compreendam que para os japoneses é imprescindível o ato de cumprir promessas. ¨Eu me vi em muitos apuros por falta do cumprimento de promessas de alguns brasileiros. Esse é um forte aspecto que precisa ser considerado, principalmente quando se trata de questões públicas¨, defende.

Nessa caminhada, Isomura conseguiu a simpatia dos brasileiros que hoje agradecem seu trabalho. Incansável, ela já fez muitas visitas para ajudar as mães brasileiras, organizou tradutores em várias áreas, solicitou intérprete na prefeitura, organizou a participação de estrangeiros em treinamentos de terremoto e planejou um jornalzinho em português com outras voluntárias.

Acredita que para diminuir a distância entre as culturas, brasileiros e japoneses precisam ceder um pouco e analisa - ¨Japonês quando está ouvindo fica repetindo hum, hum e brasileiro fica dizendo hai, hai . Ambos precisam aprender a ler outros sinais para que possam diferenciar quando dizem por que entenderam ou apenas por respeito ao outro¨.

Para finalizar, a voluntária destaca um ponto positivo no trabalho com os jovens tradutores que estão descobrindo novos horizontes. ¨Eles perceberam que para serem tradutores não basta saberem bem o idioma japonês, é necessário aprenderem também o português corretamente. Antes, muitos não sabiam nem um nem outro, hoje eles estão se superando¨, comemora Isomura.

Com objetivo de aproximar as pessoas, dentro da família, nas escolas e na sociedade, a NPO Mama.net é mais um exemplo de voluntários nativos que desejam agregar estrangeiros. Sua criadora, a arquiteta Naomi Okochi , 38, Aichi, conta que a idéia nasceu inicialmente para ajudar as mães japonesas, mas, que hoje o trabalho é estendido também aos estrangeiros.

¨As mães têm sempre as mesmas preocupações, não importa a nacionalidade. E muitas estão sobrecarregadas com as tarefas de casa e do trabalho, estão se ausentando por longos períodos, trazendo conseqüências para o afastamento das famílias. Nós queremos reunir essas mães, conversar com elas e oferecer ajuda¨.

Okochi diz que para as mulheres estrangeiras, que precisam trabalhar muitas horas, a situação é mais complicada. Muitas delas dependem de outras pessoas para cuidar dos filhos ou acabam por deixá-los sozinhos e isso é preocupante. ¨Essa ausência das mães, que saem muito cedo e voltam muito tarde, tem permitido que crianças andem por caminhos perigosos. Longe dos olhos dos pais fazem coisas erradas, como não ir à escola, freqüentar lugares proibidos e até mesmo fazer uso de drogas¨, lamenta.

Em 2005, a NPO iniciou o projeto Sekai Kodomo Koryo , que faz intercâmbio entre estudantes japoneses e estrangeiros e procura conscientizar as pessoas de que as crianças podem ensinar os adultos a viverem em paz. Através de eventos especiais, do esporte e da música, as crianças estão aprendendo que é possível conviver juntas apesar de culturas tão diferentes.

¨O que ainda falta é o conhecimento um do outro. Os japoneses foram criados como uma ilha. Acharam que nunca teriam que conviver com pessoas de outras raças e isso causa medo de se relacionarem¨, diz Okochi que já foi professora de idioma para estrangeiros.

Para ela, a comunicação precisa ser estabelecida para quebrar barreiras e abrir caminhos para o entendimento. ¨Muitas vezes, os japoneses cobram dos estrangeiros o que é natural para eles, mas, não é natural para quem não nasceu aqui. Percebi que a falha não é só dos brasileiros que não fazem o que se espera, mas, dos japoneses que não deixam claro o que querem. Essa experiência tem sido um treinamento para todos nós¨.

Segundo a voluntária, falta também mais atenção por parte do governo aos estrangeiros porque eles são importantes para a economia do país. E é junto ao governo estadual que a Mama.net está desenvolvendo o seu próximo projeto. ¨É proibido por lei cuidar de crianças dentro dos apartamentos. Mas, cresce a cada dia o número de pessoas estrangeiras que fazem isso. Então, entramos com um pedido para a lei não punir aqueles que fazem como ajuda mútua e não por objetivo financeiro. Contudo, a idéia é criar um local próprio, administrado pelo governo, onde profissionais brasileiros e japoneses possam trabalhar juntos e cuidar melhor das crianças¨, comenta a arquiteta.

Atualmente, a NPO oferece três locais para as mães deixarem os filhos enquanto trabalham. Cerca de 30 profissionais habilitados cuidam das crianças nas cidades de Nishio, Anjo e Handa.

  • Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Exclusivo para Revista Look (Japão)

 

 

 

 

 

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