Economia em tempo crise
Famílias brasileiras driblam a crise financeira no Japão
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por Mônica Carvalho Costa
Há poucos meses atrás, quando o governo japonês anunciou um pacote de mais de 100 bilhões de dólares para motivar a economia no país, a crise parecia apenas uma ameaça. Hoje, porém, a recessão já é notória nas fábricas e nas casas de muitas famílias que sentem no bolso o aumento do petróleo e dos alimentos.
Além da redução de horas extras, o corte nas listas de empregados e até mesmo fechamento de empresas, as estatísticas também mostram que a segunda maior economia do planeta vem enfraquecendo. A inflação é a maior dos últimos 10 anos, a exportação é a menor desde 2001 e a oferta de emprego tem o menor índice em quatro anos, conforme dados divulgados em agosto.
Ganhando menos, o trabalhador busca caminhos para driblar o aperto financeiro. Alguns para enquadrar a sua renda nas obrigações mensais deixam de pagar alguma conta, criando uma situação ainda mais complicada no orçamento doméstico.
Mas, existem aqueles que usam a criatividade e a disciplina para conseguir guardar algum dinheiro mesmo em tempos de recessão. Como é o caso de Ellen que diminuiu as idas ao cabeleireiro, Peter que vendeu o carro e está indo a pé para o trabalho e Beto que abandonou o cartão-de-crédito na tentativa de economizar. Veja o que eles estão fazendo para vencer a crise.
Adriana Escher e Peter Takakua, 34, Takahama (Aichi), 9 anos no Japão. Filhos: Júlio Kouji, 8 e Hugo Yuji, 10
Logo que leram as notícias sobre a recessão nos EUA, no início do ano, Adriana e Peter Takakua imaginaram que atingiria o Japão, mas, só perceberam o desfecho na hora das compras no supermercado. ¨O aumento nos preços dos alimentos foi decisivo para mudar de atitude. Alguns produtos quase dobraram de preço¨, desabafa Adriana.
Há poucos meses, o casal sentou para conversar e junto com os meninos começaram a escrever a lista de cortes. Analisaram, calcularam e decidiram o que poderiam fazer para economizar. Algumas medidas foram radicais, mas, segundo eles, está valendo à pena.
Peter decidiu ir a pé para o trabalho, cerca de 10 minutos de sua residência. Abriu mão de outros carros que possuía ficando apenas com um para uso da família. Celular também apenas um para o casal e de cartão para não extrapolar na conta. Os supérfluos foram reduzidos a quase zero e as compras de casa feitas em época de promoção. ¨Passamos a prestar mais atenção nos folhetos de ofertas para aproveitar o dia e hora certos para compra¨, afirma a esposa.
Adriana também conta que é preciso avaliar o que já tem em casa para complementar a despensa e não exagerar. ¨Agora, compro aos poucos. Nada de encher a geladeira ou deixar alimentos estragarem¨, garante. Além disso, a família também cortou idas freqüentes a restaurantes e lancherias.
Júlio e Hugo tiveram que se contentar com jogos online ao invés de comprarem novos games todo mês. As paradas nas lojas de conveniência estão proibidas, na hora do passeio a mãe prepara o lanche que vai levar de casa. ¨Coloco suco, água ou refrigerante nas garrafas térmicas e deixo no carro. Eu mesma faço o onegiri ou lanchinho quando vamos à piscina ou parque. Assim controlamos aquele gasto impulsivo¨, defende Adriana.
Os meninos passaram a ganhar uma pequena mesada para uso pessoal, principalmente para uma de suas diversões preferidas: as máquinas caça-niqueis espalhadas pelas lojas. O que antes era bancado pela mãe, agora tem que ser controlado pelos próprios bolsos. ¨Foi uma maneira de mostrar o valor e levar eles a pensarem mais antes de gastar. Se gastarem tudo de uma vez, terão que esperar até o mês que vem¨, explica a mãe.
O casal tem despesas no Brasil e por isso tem se esforçado para economizar. Adriana diz que planejar o futuro é primordial para quem deseja voltar ao país de origem. ¨A vida na fábrica é dura, mas, a desinformação é pior. Por isso, mesmo sendo dona-de-casa, procuro estar sintonizada com a economia. Fico de olho no dólar para saber o melhor momento de investir. Planejamos um futuro para os filhos, assim não podemos pensar apenas no aqui e agora¨, comenta afirmando ainda, que mesmo passando essa crise pretendem manter os novos hábitos de economia.
Ellen Fabiane e Miguel Yoshifuku, 28, Kariya (Aichi), 3 anos no Japão. Cinco filhos no Brasil.
No final de julho, Ellen e Miguel Yoshifuku decidiram fazer algumas mudanças na rotina do casal, que tem cinco filhos para sustentar no Brasil. Trabalhando como esteticista, Ellen viu a clientela diminuir pouco a pouco enquanto os preços subiam. ¨Eu tenho clientes que vinham toda semana que agora só aparecem uma vez por mês porque dizem não ter dinheiro¨, lamenta.
Miguel sofreu cortes de horas extras no trabalho e em setembro ganhou um dia a mais de folga, reduzindo ainda mais seu salário. ¨Não esperava enfrentar esta situação no Japão. Estávamos pensando em trazer os filhos, agora ficou mais difícil¨, confessa.
Assustado com o preço da gasolina, ele optou por dividir as despesas de transporte com um amigo, indo juntos ao trabalho com um kei . O carro da família agora só sai do estacionamento em ocasiões especiais. Além disso, Miguel acredita estar economizando também nas compras de supermercado já que passou a comer na fábrica.
Ellen mudou sua maneira de comprar e deixou para trás atitudes consumistas. ¨Eu como muita fruta e nunca liguei para o preço, apenas queria minha fruteira cheia. Hoje procuro as da época que estão sempre em conta¨, afirma. Mas, foi no item vaidade que a esteticista radicalizou. Ela conta que gastava cerca de 15mil ienes por semana com manicure, pedicure, cabelo e depilação. Duas vezes mais do que gasta atualmente.
Cortou as idas ao cabeleireiro e deixou de fazer compras compulsivas, dando ouvidos aos conselhos do marido. ¨Ele me fez ver que às vezes exagerava, comprando coisas que ficavam guardadas no armário sem uso. Neste verão, enchi uma sacola e levei para uma costureira transformar as peças. Uma calça comprida, por exemplo, virou calça capri com apliques. Ficou linda! E houve quem achasse que era nova¨, conta satisfeita.
Em casa, também mudou de comportamento. Pequenos hábitos estão fazendo uma grande diferença no dia-a-dia da esposa, como lavar a louça sem ficar com a torneira aberta o tempo todo e lavar a roupa na lavadora sem se preocupar em separar as peças por tipo. ¨Vi que não influencia na limpeza ou no cheiro e economizo mais¨.
Para Ellen a recessão trouxe consciência para analisar detalhes e valorizar as pequenas coisas. Afirma estar mais feliz por conseguir vencer as tentações de consumo. ¨Eu aprendi tudo isso com minha mãe, super-econômica. Mas, confesso que não colocava em prática. Hoje bate até um arrependimento. Percebo que seu fosse como ela no tempo das vacas gordas eu teria mais do que tenho agora¨, conclui.
Alberto Rodrigues Santos, 41, Takahama (Aichi), segunda vez no Japão. Esposa e dois filhos no Brasil.
¨Atualmente está muito difícil guardar dinheiro¨, reclama Alberto Rodrigues Santos, ou simplesmente Beto como prefere ser chamado. Para ele, esta recessão está muito parecida com a que enfrentou em 98 quando a oferta de emprego também diminuiu. No seu trabalho, as horas extras caíram pela metade e, por causa da crise, acompanha preocupado os amigos que perderam vagas.
¨Na primeira vez que vim ao Japão, não tinha filhos. Agora com dois, tem as despesas da escola, apartamento mais novo, carro grande, coisas que pesam no orçamento. Por isso, decidimos que a esposa e os filhos voltariam ao Brasil¨.
A família partiu há cinco meses, tempo em que Beto está tentando colocar as contas em dia. Sua primeira tarefa foi dar um fim às compras com cartão-de-crédito. ¨Comprar parcelado com o cartão deixa sempre um rastro. A fatura que antes vinha em torno de 50 mil ienes caiu pela metade, mas, ainda não é o suficiente¨, desabafa.
Ele reclama também dos impostos, calculados com base no salário alto, mas pagos hoje com salário menor. O aluguel de 28 mil subiu para 60 mil ienes, o que o levou a dar entrada num apartamento mais modesto em outra cidade. ¨Estou aguardando o sorteio num condomínio mais velho e barato. Como estou só, não faço questão de luxo¨.
Beto afirma que diminuiu as idas ao supermercado e loja de produtos brasileiros em quase 80%. Está trocando marcas geralmente caras por produtos mais baratos. ¨Por exemplo, o azeite de oliva na loja brasileira está cerca de 30% mais caro que no mercado japonês. Então, melhor trocar de produto¨, explica.
Este mês, com o salário que vem do mês de feriado, o trabalhador já sabe que terá que apertar o cinto um pouco mais, porém, não perde a motivação. ¨Eu não estabeleço metas altas em dinheiro, nem em tempo. Porque o dinheiro se ganha lentamente e talvez não compense ficar longe da família. Eu vou aproveitar o que puder do país e me esforçar para garantir o sustento deles no Brasil. Dinheiro não é tudo, mas, claro, que a minha volta não seja de mãos abanando¨, finaliza Beto.
O segredo é a determinação
É comum a pessoa encarar o desafio de economizar como uma dieta rígida onde se vê obrigada a não consumir o que mais gosta. Alguns perseveram dias ou semanas, mas, logo desistem. Quem vê assim a economia do lar tem dificuldades em abrir mão de supérfluos, artigos de moda ou quinquilharias para casa.
No Curso de Finanças Pessoais que realizo pela Exodus Press o assunto é tema de aula prática, com dinâmica para que os alunos aprendam a vencer a falta de disciplina e determinação. O segredo, abordado no curso, é não focar apenas no presente que te leva às compras por impulso, e sim, planejar o futuro com alvos que motivarão você a guardar dinheiro para usufruir em algo maior e melhor.
Por exemplo: vencer a tentação das maquininhas e deixar de consumir um refrigerante por dia ( ¥ 120), vai te render ao final do ano mais de ¥43 mil, o que daria para investir em um aparelho eletrônico, como câmera digital, mp3, e outros.
Fazer o orçamento doméstico ajuda a colocar na ponta do lápis o quanto vale o seu dinheiro. No modelo de planilha oferecido pelo Curso, soma-se a renda da família e cria-se uma estimativa de gastos para o mês seguinte baseada nas despesas da casa. Assim, você tem como avaliar se sobrando pode esbanjar um pouquinho ou se terá que cortar alguns itens para não ficar no vermelho.
- Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Matéria publicada na revista Look Japão
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