Elas conseguiram um lugar ao sol (no Japão)
Monica Carvalho Costa *
Elas são possuidoras de charme, talento, dedicação e muita força de vontade. Não vieram ao Japão apenas para trabalhar, mas, para ganhar: dinheiro, conhecimento, prestígio, qualidade de vida. Os sonhos de dekassegui abriram caminho para a realização profissional. O uniforme de fábrica foi substituído por um modelito mais arrojado, a graxa ficou esquecida e nas mãos dessas mulheres maravilhosas surgiram grandes criações. Este é o perfil da mulher brasileira que está se destacando como empreendedora no arquipélago. Alexsandra, Dápena, Elisa e Nilse, fazem parte do contingente de mulheres que está fazendo a história do empreendedorismo mundial. Segundo dados estatísticos, 30% dos novos empresários no planeta são compostos por mulheres. Só no Brasil, elas somam quase 50% do total de empreendedores. Mais de 6 milhões de mulheres que por necessidade ou oportunidade abriram o seu próprio negócio. O Brasil está entre os dez países mais empreendedores do mundo e no ano de 2000 chegou a ocupar o primeiro lugar do ranking.
¨As mulheres estão mais confiantes de suas potencialidades e por isso arriscam-se mais profissionalmente¨, afirma Sâmia Aguiar Brandão Simurro, empresária, mestra em psicologia e representante da Associação Brasileira de Qualidade de Vida. Para Sâmia, a mulher lançou-se no ambiente profissional de maneira irreversível. ¨ Ela investe no seu aperfeiçoamento e se destaca pela sua dedicação e comprometimento com o trabalho por isso os resultados são positivos¨.
No Japão, também um avanço no mercado e na sociedade que está valorizando mais a mulher. Aos poucos vai caindo aquela velha imagem da ¨Amélia¨ que ficava só dentro de casa. Basta analisar o marketing ousado e focado diretamente na nova mulher que muitas empresas japonesas vêm adotando. Dápena lembra que até os carros ganharam versões exclusivas para as moças.
Embora as pesquisas mostrem que as mulheres no Brasil empreendem mais por necessidade do que os homens, o empreendedorismo por oportunidades cresce significativamente, levando o país ao terceiro lugar nessa categoria. São pessoas que arriscam uma nova iniciativa não porque precisam de dinheiro ou trabalho, mas, porque realmente desejam realizar um novo projeto ou negócio. E este é o caso das brasileiras entrevistas, que viram uma luz e correram atrás de seus sonhos. Suas histórias vão servir de inspiração para você.
Contra o preconceito
¨Minha vida é uma loucura¨, resume Alexsandra Tsuda, administradora do Clube da Mulher Empreendedora. Com muito dinamismo ela consegue conciliar a casa, filho, empresa, amigas do clube, academia, etc. Romper o preconceito que vivenciou no mundo dos negócios, foi um dos motivos que a levou encarar o desafio de iniciar um projeto exclusivo para as mulheres. ¨Eu não era valorizada como parte da equipe. Eu era apenas a mulher do presidente da empresa. Não podia aceitar isso¨.
Para ela, a mulher é capaz de alcançar patamares mais elevados se acreditar em si mesma. O Clube, chamado também de rede de amigas, tem oferecido às mulheres a oportunidade de buscar o sucesso profissional. ¨ Algumas delas não conseguem trabalhar em fábrica, outras mesmo depois do expediente de trabalho ainda realizam atividades em casa para ajudar no orçamento familiar. É esse grupo de mulheres batalhadoras, que na sua maioria não consegue divulgar seus projetos na mídia, que o Clube atende¨.
O Clube da Mulher Empreendedora já realizou dois eventos desde 2005 e parte agora para a terceira edição da Expo Mulher em Ação, julho próximo em Kariya, Aichi. Alexsandra vê nas feiras um caminho para promover o desenvolvimento pessoal e a capacitação profissional das mulheres. ¨Tenho certeza de que unidas poderemos conquistar espaços importantes no mercado japonês pouco explorado. Juntas somos ainda mais poderosas¨.
Conselho de Alexsandra: Ter coragem e persistir. O segredo é começar com o muito ou pouco que tens. Esta é a única maneira de melhorar algo. No princípio nada é fácil, mas, vai se conquistando passo a passo. Visual bem cuidado, sorriso e humildade também ajudam nos relacionamentos.
Mulher de sorte
¨Costumo dizer que eu estava na hora certa, no lugar certo, diante da pessoa certa. Com tantas pessoas maravilhosas perto de mim, só consigo acreditar que sou uma mulher de sorte¨. È assim que Dápena Tigre define o começo de sua bem-sucedida carreira à frente da agência de modelos Ellite Japan há dois anos. No ramo de moda há 17, ela diz que veio ao país buscar mais conhecimentos e não tinha em mente administrar um negócio. ¨As coisas foram acontecendo e quando percebi estava com a responsabilidade nas mãos¨.
A empresária teve que superar algumas dificuldades como o idioma e a cultura diferenciada. ¨Tenho contatos com grandes empresários japoneses. Muitos se assustavam quando me encontravam pessoalmente e davam de cara com uma estrangeira administrando uma empresa japonesa. Tique que batalhar e estudar muito as formas corretas para tratar de negócios com um empresário de primeiro escalão. ¨
Dápena se divide entre o trabalho (cerca de 10 a 12 horas por dia), a casa, o marido, três filhos homens em fases etárias diferentes e as modelos adolescentes que, segundo ela, muitas vezes ocupam horários fora do expediente para conversas, conselhos e dicas. ¨É uma vida movimentada, eu não tenho rotina. Rotina pra mim é não ter nada para fazer...eu morreria¨.
Conselho de Dápena: O maior desafio é se manter no mercado, é buscar no nada um novo cliente. É provar que seu produto é melhor, mesmo que não seja. Por isso, estude, pesquise e tenha pés no chão. Seja qual for o projeto, não faça só visando à parte financeira, coloque em primeiro lugar a qualidade, seu amor e dedicação. Isso vai ajudar a superar as barreiras, críticas e crises emocionais que surgem.
Receita de prazer
Mãe empreendedora, filha empreendedora. Elisa Maris, proprietária da Kaza da Pizza, conheceu a dedicação ao trabalho ainda criança, observando sua mãe administrar sozinha uma loja de armarinhos. Cansada de trabalhar em fábrica, ela ansiava pela possibilidade de fazer algo rentável e que, principalmente, lhe desse prazer. ¨Eu gosto muito do que eu faço. Com certeza, o ingrediente principal em tudo que eu faço é o amor¨.
Elisa aprendeu a fazer a massa da pizza com um pizzaiolo experiente que lhe deu as dicas, todavia ela garante que batalhou muito para chegar até aqui. ¨Só uma boa receita na mão não lhe garante um bom prato, eu capricho, zelo por cada detalhe¨, diz. Em apenas um ano trabalhando como disque-pizza, ela e o marido contabilizaram o sucesso e resolveram investir um pouco mais. Inauguraram em maio uma pizzaria em Aichi, em local construído especialmente para esse empreendimento.
Para a empresária os maiores desafios foram: aprender o idioma, enfrentar a discriminação na hora de alugar um imóvel pelo fato de ser estrangeira e, superar a dor de haver perdido dois dedos num acidente, um mês após ter iniciado os negócios. ¨Algumas pessoas me ligavam para me consolar e ficavam impressionadas com a minha força. Se o acidente fosse na fábrica teria entrado em depressão. Sim , fiquei triste, mas não desisti, eu estava e estou trabalhando no que é meu¨.
Conselho de Elisa: Surgirão dificuldades e obstáculos pela frente, no entanto, eu diria a todas as mulheres que têm sonhos que devem tentar realizá-los. Com dedicação e amor, elas conseguirão. Ah, e uma reserva financeira ajuda muito para os imprevistos que certamente aparecerão.
Luz na janela
Há 15 anos, Nilse Segantini alimentava o sonho, pesquisando e acumulando experiências para elaborar um canal de informação voltado às mulheres. O resultado desse investimento gerou a revista Bella, que se esgotou nos primeiros dias de lançamento. ¨ O que me levou a seguir esse caminho foi uma força que eu encontrei quando estava decidida a voltar ao Brasil, pois achava que este sonho não se realizaria aqui. Enfim, foi uma luz que entrou por minha janela e me iluminou no momento certo¨.
Criada numa educação muito rígida, hoje Nilse agradece os conselhos do pai que lhe ensinou sobre respeito ao próximo, ética e autenticidade, tudo que ela considera importante para vencer. ¨As pessoas precisam ser orientadas de que tudo o que se quer se pode ter desde que programe, estude, enfrente os obstáculos e não deseje o que é do outro¨. Para a empresária, a comunidade brasileira deveria se unir e investir mais em quem está começando. Segundo ela, há muita gente especializada esquecida trabalhando nas fábricas, ¨é preciso valorizar os patriotas e acreditar neles¨.
A empreendedora dedica-se tanto ao trabalho que costuma acordar no meio da noite para anotar idéias ou organizar os horários do dia seguinte. ¨Dá para acreditar? Meu cérebro trabalha 24 horas por dia. Acho que estou me saindo bem como empresária, só não vou mentir que sou super-mãe, super-esposa porque não sou. Gosto de organizar a casa, mas, não fico esfregando panelas não!¨. Nilse acredita que a mulher tem de ser vaidosa e deve investir em si mesma para ser valorizada. ¨Não precisa ser a mais inteligente nem a mais bonita, mas, em alguma coisa ela tem que ser boa¨.
Conselho de Nilse: Quando você achar que tudo está perdido, pense que você é a única pessoa designada para desempenhar o seu trabalho nesta vida.
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Conselho de Sâmia: O melhor caminho para quem está fora de seu país é se capacitar através de um curso ou uma especialização e um aprimoramento na língua local. A vantagem dos cursos, além da capacitação, é promover o seu network profissional que o levará à inserção no mercado e ao conhecimento do mundo corporativo neste país.
- Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Reportagem editada pela Revista Japan Total
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