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É Probido fumar


Caça aos fumantes

por Mônica Carvalho Costa

¨É proibido fumar, diz o aviso que eu li¨! Essa frase representa hoje muito mais que a famosa letra da canção de Roberto Carlos. Por todos os lados, painéis estampando a tal mensagem têm fechado o cerco contra os fumantes, não deixando muito espaço para uma tragada, seja em locais públicos fechados ou a céu aberto. As leis antitabagistas, em todo mundo, têm promovido uma verdadeira caça aos amantes do cigarro. Uma luta que coloca o poder público contra a indústria do tabaco e os não-fumantes e fumantes no mesmo ringue.

Hospitais, restaurantes, cinemas, shoppings, aviões, são alguns lugares conhecidos pela proibição ao cigarro, cachimbos e charutos, em locais coletivos fechados desde a década de 90. Contudo, a guerra de combate ao fumo ganhou força atualmente proibindo as baforadas em locais abertos, inclusive nas ruas. Em Los Angeles (EUA) ou em Sidney (Austrália), ao lado das sinalizações para não poluir a praia pode se encontrar o aviso para não poluir o ar com a fumaça do tabaco. Nas estações de trem do Japão, quem não recorrer aos fumódromos existentes para acender um cigarro, pode ser pego numa advertência. E em Nagoya, os pedestres precisam ficar de olho na sinalização das ruas para não serem pegos fumando em lugar proibido.

Com o apoio das campanhas contra a fumaça alheia, os não-fumantes ficaram mais encorajados a solicitar que o indivíduo infrator apague o seu cigarro. Um estudo realizado no Brasil pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), constatou que fumantes e não-fumantes concordam, por unanimidade, que o cigarro deve ser coibido em lugares públicos. No entanto, quase a metade deles reage mal quando lhe pedem para apagar o seu. Apenas 44% dos fumantes apagam o cigarro. Mesmo aceitando a lei eles se sentem ameaçados; alguns recuam, outros se revoltam. Às vezes é preciso solicitar a intervenção de uma autoridade local, como um segurança ou garçom, para forçar o cumprimento da lei.

As crianças sofrem mais

A polêmica se baseia no resultado de pesquisas que comprovam os malefícios do cigarro também para os não-fumantes, chamados fumantes passivos, ou seja, aqueles que inalam a fumaça involuntariamente. Crianças e bebês também se enquadram, uma vez que recebem a fumaça tóxica e a nicotina pelo útero da mãe (durante a gravidez) ou pelo leite materno (durante a amamentação). No Brasil, 50% das crianças estão expostas ao fumo. As estimativas da Organização Mundial de Saúde são de 700 milhões, aproximadamente a metade de crianças do mundo expostas à fumaça do cigarro.

A ciência já provou que a exposição ao cigarro leva ao câncer de pulmão e doenças do coração. Atinge principalmente as crianças, trazendo complicações respiratórias (elas desenvolvem muito mais otite, bronquite, asma e rinite alérgica ) ou até a síndrome de morte súbita infantil. Um estudo documenta que, a cada ano, o fumo em casa mata quase 300 crianças e faz quatro milhões de doentes infantis nos Estados Unidos. Essa descoberta já pautou os tribunais de vários estados americanos para negar custódia a um pai ou mãe que expõe o filho à fumaça ou para emitir ordens de não fumar alguns dias antes e durante a visitação da criança. E impulsionou ainda mais as campanhas contra ao fumo. No Canadá, uma publicidade do Ministério da Saúde usando imagens de crianças diz: ¨não nos envenenem¨.

Mesmo com tantos argumentos, a maioria dos fumantes não consegue largar o hábito de acender um cigarro 10 a 20 vezes por dia. O mesmo vício que aprisiona, traz culpa e causa doenças, provoca uma sensação de prazer e conforto emocional. Vencer a dependência causada pela nicotina não é o único desafio a ser enfrentado, há também a dependência psicológica. Alguns acreditam que podem engordar muito, podem ficar mais nervosos ou cair em depressão e com isso vão adiando a decisão de parar. Assim tornam-se vítimas dos apelos da família e cobranças das pessoas mais próximas. Mas, ¨infernizar a vida do fumante é um mau método para fazê-lo deixar de fumar¨, diz o famoso Dr.Drauzio Varella.

A indústria na mira

A perseguição contra a indústria do fumo, que movimenta só nos Estados Unidos cerca de 50 bilhões de dólares, é ainda mais ferrenha. Desde o início dos anos 70, foi proibida a propaganda nas TVs americanas e depois em diversos outros países. No Brasil, não se tem mais artigos promocionais nem cartazes publicitários nos locais de venda. A União Européia proibiu o merchandising inclusive nos carros de Fórmula 1 e nos macacões dos pilotos. E desde 2005, os 192 membros da Organização Mundial de Saúde adotaram o primeiro tratado de saúde pública do mundo para o controle do tabaco que prevê, entre outros itens: fornecer às pessoas mais informações sobre os perigos do cigarro, criar e aplicar medidas que ajudem a manter os menores de idade longe do consumo e fazer uma série de restrições em toda a propaganda, promoção e patrocínio das empresas de tabaco.

As indenizações milionárias movidas por fumantes com diagnóstico de câncer proveniente do cigarro foram outro ataque contra as indústrias. Desde a morte, em 1992, por câncer de pulmão do mais famoso garoto-propaganda de cigarros, o caubói da Malboro, Wayne McLaren, o antigo hábito de fumar não é o mesmo. O que antes era enaltecido pelo marketing com forte apelo de sucesso e glamour, transformou-se num vício execrado pela sociedade do bem-estar. Com o fim das propagandas, o consumo nos Estados Unidos caiu consideravelmente. E no Japão os índices não param de cair desde 1966, quando 49.4% de adultos (83.7 por cento de homens) eram fumantes, para 29.2%, de acordo com maior companhia de cigarro do país.

Para saber:

  1. Na fumaça do cigarro são encontradas cerca de 4700 substâncias tóxicas diferentes, que poluem o ar e causam doenças mesmo nos não fumantes.
  2. Por ano são registradas 200 mil mortes relacionadas tabagismo. Isso significa que, em um dia, o cigarro é responsável pela morte de 300 pessoas, quantidade que supera o número de mortes por Aids, acidentes de trânsito e crimes, em conjunto. No Brasil , o fumo é responsável por 80 mil mortes por ano, ou seja, oito mortes por hora no país.
  3. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que, se a situação permanecer, em 2020 o vício levará mais de 10 milhões de pessoas à morte anualmente.
  4. Vários estudos chegaram à mesma conclusão: passar o dia inteiro num ambiente ao lado de fumantes é o mesmo que fumar de cinco a dez cigarros
  5. Depois de duas horas, não faz diferença estar sentado longe ou perto do fumante. Por isso, separar fumantes dos não-fumantes em bares e restaurantes, embora tenha valor psicológico, não tem nenhum valor científico, porque todos os freqüentadores serão intoxicados pela nicotina.
  6. Antes de a União Soviética ser desfeita, formavam-se filas de 20 a 30 mil pessoas que fumavam enquanto aguardavam a vez de aproximar-se do túmulo de Lênin. Estudo realizado na época mostrou que a quantidade de nicotina ali represada era tão grande que, nos últimos anos do governo comunista, foi proibido fumar nessa praça.
  7. Em 1880, cerca de 60% dos usuários de tabaco eram mascadores de fumo, 38% fumavam charuto ou cachimbo, 3% cheiravam rapé e apenas 1% era fumante de cigarro. Nesse ano, o americano James A. Bonsack inventou uma máquina capaz de enrolar 200 cigarros por minuto, o que criou condições para o aparecimento da indústria.
  8. Para se fabricar apenas 300 cigarros , se destroem uma árvore. No Brasil, são consumidos anualmente 128 bilhões de cigarros , o que corresponde à destruição de 426 milhões de árvores!
  9. Na maioria dos países, 90% dos fumantes começaram a fumar entre os 5 e 19 anos de idade, induzidos pela publicidade e pelo exemplo de ídolos, pais e amigos.
  10. A Organização Mundial de Saúde considera o tabaco o maior agente de poluição doméstica ambiental do mundo!
  • reportagem especial para Revista Look

 

 

 

 

 

 

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