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Texto e foto por Mônica Carvalho Costa, exclusivo para Revista Japan Total
Consumismo, falta de incentivo e de projeto de vida afastam jovens brasileiros da escola
A brasileira Erica, 18, que faz arubaito em uma loja de conveniência em Aichi, já anunciou aos pais que, ao terminar a oitava série, vai parar de estudar para trabalhar em tempo integral. O motivo: ter mais dinheiro para consumo pessoal. Ela não é a única com essa visão. A cada dia, mais adolescentes brasileiros no arquipélago estão interrompendo os estudos para encarar a rotina nas fábricas.
A sociedade capitalista sempre valorizou mais o “ter” do que o “ser” - ter dinheiro, status, roupas da moda, videogame, carro próprio. É comum ouvir as pessoas afirmando que vieram ao Japão apenas para ganhar dinheiro, deixando em segundo plano as opções do “ser” - ser um indivíduo mais instruído, um profissional mais qualificado, um pai ou uma mãe mais dedicados.
Na opinião da pedagoga Andreza Cristina Marques, 29, coordenadora do Colégio Pitágoras de Kariya, em Aichi, os brasileiros no Japão não estão muito preocupados com a carreira estudantil ou profissional, andam mais ocupados em possuir “coisas”. “Eu já não chamo mais de ser humano, mas de ‘ter humano’. A facilidade para se conseguir as coisas aqui contribui para criar esse desejo de sempre ter mais”, diz.
Para explicar a demora em voltar ao país de origem, a estudante Thaiane Tiemi, 15, do Pitágoras, afirma que a vida fácil no arquipélago influencia na decisão. “Aqueles que estão aqui há mais tempo se acostumam com a mordomia, com a vida boa.” A colega Fernanda Akina, 16, concorda. “Você se acostuma com o padrão de vida, melhor que o do Brasil, e não quer deixar isso”, explica.
Para Virginia Kimie Izumi da Silva, 42, conselheira educacional para alunos estrangeiros em Shizuoka, a criança cresce ganhando todo o tipo de aparelhos, brinquedos caros e celular (quase sempre com contas altíssimas), na tentativa, por parte dos pais, de suprir a falta de carinho e atenção. “Mas até quando se pode viver assim? Quando você se dá conta, seus filhos que estavam na creche já estão cursando o ginásio. Falta firmeza dos pais e mais incentivo à educação. Logo eles irão concluir que se os pais conseguem ter tudo que querem trabalhando, sem ter estudo, eles também podem. Então vão desejar trabalhar mais do que estudar”, analisa.
Masako Santos, 40, que é mãe de dois adolescentes e trabalha como auxiliar para estrangeiros numa creche japonesa em Aichi, concorda que muito disso se deve à falta de participação dos pais na vida educacional dos filhos e ao fato de não estabelecerem uma relação de limites e de diálogo com eles. “Eu vi minha filha de 16 anos abandonar os estudos e ir para a fábrica. Eu me questionei. Descobri que muitas vezes nós, pais, passamos tão pouco tempo com nossos filhos que nesses poucos momentos evitamos brigar, discutir. E acabamos cedendo às vontades deles”, diz.
SEM PERSPECTIVAS
Ver os sonhos das filhas adolescentes desaparecendo tem entristecido e provocado inquietação em Célia Wakamatsu, 40, mãe de Erica e de Michele, 15. “Erica sonhava em ser veterinária, agora o sonho sumiu. Eu fico pensando: o que vai ser das minhas filhas? Vão acabar numa fábrica como eu?”, questiona a mãe, aflita.
A estudante Débora Sumiye, 17, acredita que quem vive no Brasil pensa mais no futuro do que aqueles que estão no Japão. “Lá, todos, pais e filhos, estão mais preocupados com o ensino, pensando no futuro. Desde pequeno você começa a ser incentivado a pensar no que vai ser quando crescer. No ensino médio, já pode fazer algum estágio ou ter um trabalho no negócio da família, mas aqui não é assim”, diz.
A pedagoga Andreza Marques alerta para o fato de que muitos jovens e adolescentes não têm projeto de vida, sonhos ou perspectivas para o futuro. “Falta planejar o quer ser, o que se quer para a vida, aonde se quer chegar e em quanto tempo.” Para ela, a solução sempre esteve na educação, em todos os sentidos. “Não vejo outra maneira de mudar essa mentalidade, tem que ser pela educação dos pais, em primeiro lugar, o exemplo deles é importante. É preciso haver um resgate de valores e uma orientação direcionada para vivenciar esses valores”, defende Andreza, que veio ao Japão com o desafio de ajudar os estudantes brasileiros.
Nesta questão, pedagogos e psicólogos concordam que o papel dos pais é fundamental para ajudar o adolescente a superar as crises de identidade e planejar o futuro centralizado na importância do “ser”. “Os pais devem dar muito amor, acesso à vida escolar e ajudar no desenvolvimento das capacidades únicas de seus filhos. E também incentivar, elogiar, não deixar de impor limites e dar uma chance para que o adolescente encontre o seu caminho”, afirma a conselheira Virginia Kimie.
- foto extraída da revista Japan Total
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