Desvendando o mau humor
Uma análise sobre a disfunção do humor que faz adoecer mas tem cura
por Monica Carvalho Costa *
Comecei a me preocupar com o assunto quando passei a levar meu filho de dois anos na creche e recebi um caderninho para especificar várias coisas a respeito de seu comportamento e uma delas era se ele acordava normal, de bom humor ou mal-humorado. Todo dia tenho que fazer esse diagnóstico do meu filho, no entanto, seria ótimo se cada um começasse a fazer essa avaliação em si mesmo. Com certeza, teríamos pessoas mais alegres convivendo conosco, pois, nosso humor pode contagiar positiva ou negativamente.
Como você acordou hoje? Esboçou um sorriso, agradeceu pelo dia, cantou inspirado pelo sol? Se a resposta a todas essas perguntas foram negativas, é hora de parar e pensar um pouco na forma como você está encarado a vida. Se ¨rir é o melhor remédio¨ e ¨quem canta seus males espanta¨, talvez a ausência disso explique o grande número de pessoas doentes e mal-humoradas que econtramos nosso dia-a-dia, em casa e no trabalho.
Sempre tem um chato por perto, de testa franzida, que acorda ¨azedo¨, que reclama de tudo, revoltado com o mundo, criticando a todos e que vive soltando vento pela boca. O mal-humorado afeta o ambiente, contagia as pessoas com seu pessimismo e provoca conflitos nos seus relacionamentos, fazendo com que a sua rotina permanceça no azedume. O mais marcante, dessa disfunção no humor, é mesmo a pouca tolerância com as pessoas, os acontecimentos, com o clima, com a economia, com o trânsito, com a espera por alguma coisa ou alguém, com o mundo ao seu redor. Além disso, pode sofrer outros sintomas como aumento da irritablidade, agressividade, insônia ou excesso de sono, indecisão, sentimentos de não-aceitação de si mesmo e dos outros, alterações no apetite, falta de alegria e estado depressivo frequente.
As pesquisas estão comprovando o que a bíblia já alertava a centenas de anos atrás - ¨O coração alegre é como bom remédio, mas, o espiríto abatido enfraquece até os ossos¨ -Prov.17:22. O ranzinza, de cara-fechada, com humor deprimido, pode vir a ter problemas físicos e doenças relacionadas a baixa imunidade do organismo. Segundo a psiquiatra Júnea L.C. Messias, quem vive a vida de forma tensa e mal-humorada libera adrenalina, noradrenalina e corticóide, substâncias que provacam diminuiação de glóbulos brancos, responsáveis pela defesa de nossas células.
A palavra humor, teve origem na medicina grega que traduzia como fluidos do corpo, humores do corpo humano como sangue, a linfa, a bílis, enfim as seivas da vida. Por isso, o bom ou mau humor pode influenciar não só o temperamento, o psique, como também o corpo do ser humano. Fisiologicamente o humor está intimamente ligado com o nosso ser completo. Como podemos ver, a cara-feia enrrugada demonstra muito mais que uma simples alteração mental ou temperamental, ela pode estar refletindo um desequílibrio nas emoções e uma porta aberta para entrada de várias doenças. E isso, sem dúvida, merece a nossa atenção.
De onde vem o mau humor?
De acordo com especialistas, o ser humano ri, diariamente, cerca de 300 vezes, do momento em que nasce até os seis anos de idade. Na medida em que cresce, essa capacidade de achar graça diminui consideravelmente. Tanto, que quando chega à fase adulta, mesmo que seja muito risonha, a pessoa tem dificuldade de atingir 100 risadas ao longo do dia. Os menos alegres riem apenas 15 vezes. Talvez a seriedade com que encaramos a vida, os afazeres, as responsabilidades familiares, profissionais e as pressões da vida social... a violência, a dificuldade financeira, das quais não encontramos motivo para riso, tende a projetar em nós uma sociedade de seres infelizes.
O mau-humor atinge tanto homens como mulheres, porém de forma diferente. Para os homens as causas são externas, já para as mulheres a causa é mais profunda. Antigamente, pensava-se que a mulher manifestava o mau humor apenas durante o período da TPM (Tensão Pré-Menstrual), mas, estudos mostraram que a causa do mau-humor feminino pode ser genético. Cientistas norte-americanos, relataram que as mulheres são mal-humoradas desde o nascimento. Elas produzem menos a enzima chamada COMT, o que as torna mais ansiosas e irritadas e, pior, algumas possuem uma versão desse gene que as torna mal-humoradas. De acordo com psiquiatras e psicólogos, o mau-humor precisa ser tratado quando esse comportamento traz sofrimento para si ou para os outros.
O mau humor crônico, em geral, está ligado a outros distúrbios do comportamento humano. Ele pode estar relacionado com a Distimia, definida pela psiquiatria como um estado depressivo crônico, uma doença classificada como Transtorno Persistente do Humor, que acomete pessoas na idade jovem e provoca prejuízos significativos na vida do paciente. Doutor G. J. Ballone, especialista em psiquiatria geral, explica: ¨É como se tratasse de uma pessoa alérgica à tudo, só que, ao invés de reagir às coisas do ambiente com crises alérgicas, reagiria aos acontecimentos com mau humor.¨
De acordo com o doutor Ballone, o mau humor também pode ser consequente do Transtorno Obssessivo-Compulsivo da Personalidade, onde a incompatibilidade entre a pessoa e o mundo se deve às características de perfeccionismo e intolerância quando a ordem das coisas não ocorre de acordo com a sua previsão e desejo - ¨ Estas pessoas tornam-se muito desagradáveis, elas são incapazes de suportar tudo aquilo que consideram infração às suas póprias determinações de organização. A implicância se relaciona desde com a arrumação de seus pertences pessoais (guarda-roupas, gavetas, mesas), até a organização extremamente cuidadosa de coisas relacionadas ao trabalho e profissão. O mau humor pode ser desencadeado se encontrar o banheiro respingado, o creme dental apertado pelo meio do tubo ou qualquer outra coisa fora do lugar.¨ - complementa Ballone.
O mau humor tem cura?
Na verdade, ficar mal-humorado é diferente de viver mal-humorado. O indivíduo pode estar vivendo uma situação desagradável e estar de mau-humor, mas, ele não é mal-humorado. Essa diferenciação é importante para fazer um diagnóstico mais coerente com a sua realidade. No entanto, se o estado de mau humor não for resolvido e tornar-se prolongado, então, significa que a pessoa precisa tratar a disfunção do humor.
Para entender melhor o mal (relativo à doenças) causado pelo mau humor é preciso conhecer os benefícios do humor sadio. Cientistas já comprovaram a relação entre bom humor e bem-estar, descrevendo seus efeitos com a mesma importância, que tem para a saúde, a prática de exercícios físicos. No mundo todo estão aplicando a terapia do riso. Sem uso de medicamentos, aplica-se o riso para melhorar a saúde e amenizar a dor. Muitos hospitais, tem sido invadidos por doutores da alegria, que vestidos de palhaço e usando os recursos da música, da mimíca, das brincadeiras, levam muita risada e diversão para crianças internadas e doentes graves.
O riso como expressão de alegria melhora os sistemas cardiovascular, respiratório, imunológico, muscular, nervoso central e endócrino, entre outros. Na revista Business, edição 16, Marcos Takashi Morishigue publicou um artigo sobre a fisiologia do bom humor, mostrando o imapcto do riso na saúde e na longevidade das pessoas. Na matéria, Morishigue afirmou ¨acredito que o bom-humor é uma grande arma contra todos os males do dia-a-dia¨.
Ter hábitos saudáveis como ouvir boa música, praticar esporte, fazer massagens nos ombros e nos pés para aliviar a tensão, tomar banho de sol para captar a energia solar, ter momentos de lazer e olhar as situações de um ponto de vista positivo, podem ajudar muito no combate ao mau humor. Para a terapeuta e psicológa, Katia Cristina Horpaczky, descobrir o porquê do desequilíbrio entre o bom e o mau humor, é o melhor caminho para resolver e ter uma melhor qualidade de vida. ¨Olhar para si, por dentro e por fora, fazer uma auto-avaliação e, se for necessário, pedir ajuda especializada ¨, diz Katia.
Referências:
Ballone GJ – Mau Humor, in. PsiqueWeb, internet, disponível em http://www.psiqweb.med.br/mauhumor.htm
Professor Gretz – www.gretz.com.br
Katia Cristina – Mau humor, disponível em http://estrelaguia.virgula.terra.com.br/bin/pg_dinamica.php?id_pag=586
L.C.Bocatto – www.eh.com.br
- Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Reportagem especial para Revista Business (Japão)
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