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Nomes de brasileiros


O problema está no nome

Mônica Carvalho Costa *

Talvez nem a Antroponímia (estudo dos nomes próprios) possa explicar o que acontece com os nomes de brasileiros em território nipônico. Grandes e de complicada pronúncia para os japoneses, muitos nomes e sobrenomes de estrangeiros ganham novas formas de escrita e som. Quem já teve seu nome alterado num documento, garante que esse fato não tem nada de engraçado. As dificuldades em ter o seu nome escrito ou dito corretamente acabam provocando até dor-de-cabeça.

Muitos nomes estrangeiros sofrem modificações por não haver espaço suficiente para escrevê-lo nos formulários ou por conterem letras mudas, ou com as consoantes V, L, LH, NH, que inexistem no nihongo (idioma japonês). Podem ser escritos em letra romana, hiragana, katakana ou kanji, dificultando ainda mais o reconhecimento do nome original. Nivaldo, por exemplo, pode se tornar Nibarudo.

No entanto, não é apenas a pronúncia alterada que incomoda. Muita gente enfrenta problemas sérios por causa de erros no nome, como cobrança de impostos duplicados, dificuldades na hora de registrar um filho, complicações na conta bancária e outros. Os funcionários da prefeitura de Higashiura (Aichi), que preferem não ser identificados, contam que a confusão é tanta que o governo está estudando uma forma de padronizar o Tsuushomei (a maneira como a pessoa assina o seu nome em japonês).

¨Parece bobagem, mas, ver o seu nome sempre errado causa um estresse. Fui chamado de diversos nomes que até soam engraçados, porém, chega uma hora que isso não tem graça nenhuma¨, lamenta Jorge Luiz Sanson Junior, 31, Takahama (Aichi). Ele e a esposa, Roberta Yumi Yao Sanson, 31, já passaram por situações constrangedoras por causa do sobrenome Sanson, que já ganhou variações como Shiason, Sanzon, Sanusonu, e outras.

Roberta diz que foi registrar o inkan (carimbo) com o kanji de Yao, mas, não possuía nenhum documento que provasse que ela usava esse sobrenome no dia-a-dia. ¨Foi preciso fazer o inkan em katakana. E só com o holerite em mãos, onde constava meu sobrenome Yao em katakana, é que eles registraram¨. Jorge Luiz por sua vez teve problemas com sua conta bancária. ¨Na frente da caderneta o nome está romanji, no interior está em hiragana e o cartão do banco está em katakana. Tive problemas para receber depósitos por causa disso. ¨

Sobrenome registrado

Problema maior foi vivido por Marcus de Araújo, 38, Higashiura (Aichi), que recebeu duas cobranças do imposto municipal. Quando chegou ao Japão em 91, a empreiteira deu-lhe um inkan com o kanji de Onodera (sobrenome da mãe) que não consta no seu verdadeiro nome. ¨Quando olhei, vi uma cobrança para o Marcus de Araújo e uma para o Marcus Onodera, como se fossem duas pessoas diferentes. Não foi fácil explicar o engano¨, diz.

Hoje Marcus possui o Tsuushomei registrado em seu gaikokujin toroku (identidade estrangeira). Ou seja, abaixo do nome real em em letras romanas está escrito também o nome em caracteres japoneses com a inclusão do kanji de Onodera. ¨Todos os meus documentos e contas no Japão constam o sobrenome Onodera. Ficou mais fácil para mim¨, comenta.

O Tsuushomei é o nome que a pessoa usa no cotidiano, registrado em nihongo que facilita a identificação do cidadão, a emissão de papéis públicos e documentos no país. Em geral, as pessoas registram o sobrenome japonês ou o último nome conforme o passaporte. Para fazer o registro basta comparecer na prefeitura de sua cidade, levar consigo o gaikokujin toroku, o inkan e um documento que comprove o uso do nome na vida diária (crachá da firma, cartão de visita, holerite, etc.).

Sobrenome mudado

No caso da mulher casada, separada ou divorciada, a situação se torna mais complicada quando ela tem um documento com o nome de solteira, outro com o nome de casada e um terceiro já com o sobrenome do ex-marido excluído. ¨Os brasileiros mudam de nome com freqüência e isso gera confusão, principalmente nas prefeituras onde não há tradutores e que não sabem lidar com estrangeiros¨, revela um dos atendentes da prefeitura de Higashiura.

A burocracia para a mulher mudar o sobrenome também é grande nos órgãos públicos brasileiros. Isso contribui para que muitas delas não se apressem em trocar os documentos. Contudo, esposas que adotaram o sobrenome do marido e não atualizaram seus documentos pessoais, podem enfrentar problemas na hora de tirar o atestado de antecedentes criminais, via procuração. Isso porque o consulado brasileiro se vale do nome que consta no passaporte para emitir as procurações públicas. Porém, no Brasil, a Polícia Civil não aceita a procuração se o nome não estiver exatamente igual ao que consta na identidade (RG).

Nomes dos filhos

Pais separados precisam ter muito cuidado na hora de registrar o filho recém-nascido. Para registrar o rebento na prefeitura, a lei exige que se apresente a certidão de casamento. Como tem sido comum a separação de casais brasileiros e a união não-oficial com outra pessoa, o filho acaba sendo registrado somente no nome da mãe ou no nome do antigo marido. Parece loucura, mas, isso acontece com mais freqüência do que se imagina.

Já no Consulado Brasileiro, que está submetido às leis brasileiras, o pai pode ser apenas o declarante, independente dele estar oficialmente casado ou não com a mãe. Por causa disso, Maria (nome fictício) teve o filho registrado com dois nomes diferentes. Na prefeitura japonesa o filho foi registrado com o sobrenome do antigo marido e no consulado brasileiro com o sobrenome do verdadeiro pai. A correção só feita seis anos mais tarde, quando Maria apareceu para registrar o segundo filho da relação ainda não oficial.

Na tentativa de driblar um pouco as diferenças, permitindo que as crianças tenham um nome mais apropriado para viver e conviver na sociedade japonesa, a maioria dos dekasseguis coloca nomes compostos nos filhos utilizando-se dos dois idiomas, como Cíntia Hiromi, por exemplo. No entanto, ter dois prenomes não é nada comum para os japoneses.

Os nativos, em geral, possuem apenas um nome e um sobrenome, enquanto que os brasileiros chegam a ter até seis nomes ao todo. Ao casar-se, o casal japonês é obrigado a assumir um apelido em comum, e apesar de na maioria das vezes ser o do homem, o contrário também é socialmente aceito . Já as brasileiras têm o sobrenome do esposo adicionado ao restante. E para completar o quadro das diferenças, o apelido de família entre os japoneses precede o prenome na ordem do nome completo.

  • Mônica Carvalho Costa é jornalista, profissional da área de comunicação e marketing e líder cristã. Matéria publicada também na revista Look

 

 

 

 

 

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