Reforma ortográfica já está valendo mas não deve preocupar |
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por Mônica Carvalho Costa
Nem sempre o bom português está na ponta da língua e a dificuldade aumenta quando transferimos as palavras para o papel. Basta um simples teste nas ruas para verificar que a maioria das pessoas se confunde com as regras gramaticais do idioma. Trocam letras, esquecem acentos, não conjugam verbos adequadamente e erram a grafia de muitas palavras da língua portuguesa.
A culpa pode estar na complexidade da língua, na má alfabetização dos alunos ou no pouco hábito de leitura do brasileiro. Mas, quem nunca teve dificuldades na hora de escrever o português que atire a primeira pedra. As dúvidas são inevitáveis e devem aumentar ainda mais, por conta da reforma ortográfica que entra em vigor em janeiro de 2009 e prevê a unificação da língua portuguesa nos países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Mesmo com as duas formas de escrita (a atual e a nova) caminhando juntas por algum tempo, é certo que estudantes, professores, escritores e até jornalistas terão que ficar mais atentos à gramática na hora de redigirem seus textos. Softwares com corretores automáticos e dicionários com edições antigas estarão desatualizados a partir do ano que vem.
Assim, se não quiseram errar, todos terão que aprender as novas regrinhas que mudarão menos de 0,5% das palavras brasileiras e pouco mais de 1,5% das palavras em Portugal, segundo estudiosos. Para as escolas brasileiras a lição de casa é mais complicada. O Ministério de Educação (MEC) determinou que todos os livros didáticos sejam atualizados até 2010.
Por força da lei, muitos estabelecimentos de ensino já se preparam para as mudanças. ¨ Nós agimos por antecipação. Desde que o acordo foi sancionado, espalhamos caratezes pela escola, divulgamos sites para pesquisa e distribuímos um pequeno guia. Os alunos sabem que só vai valer daqui algum tempo, mas, já podem visualizar agora como é e como ficará a gramática ¨, conta Marcus Vinicius Toledo, 45, coordenador do Colégio Pitágoras em Kariya (Aichi).
Com mais de 20 anos de gestão na empresa, Toledo afirma que as escolas mais estruturadas, em geral, atualizam seus livros didáticos periodicamente, em virtude dos avanços nas ciências e na tecnologia e até mudanças na geografia. Sendo assim, acredita que não terão problemas para reeditar também os livros que trarão as novas regras ortográficas.
¨A mudança é técnica e atingirá a língua erudita e escrita. O português falado continuará vivo pelas ruas. Em nossa escola, nenhum aluno será punido a ferro e fogo por manter a escrita na forma antiga. Teremos um tempo de transição até que todos se adaptem¨, afirma o coordenador.
Já para o escritor brasileiro, Marcos Diego Mogami, 36, não muda nada. Ele afirma que o seu processo criativo continuará o mesmo, e não vê necessidade de reeditar os livros agora só por causa das mudanças gramaticais. ¨ O cuidado com as palavras é sempre importante para o escritor. Colocar a palavra certa no lugar certo é um trabalho minucioso e exige lapidação. É uma preocupação é mais literária, a de transmitir uma mensagem ao leitor. Assim, os livros já editados não ficarão esquecidos só porque mudaram a gramática ¨, conclui o autor de quatro livros, entre eles Chuva de Lágrimas que está sendo traduzido para o japonês.
Acordo divide opiniões
É uma discussão antiga e polêmica. O acordo esbarra em política, tradições culturais e numa certa resistência desde 1975, quando a Academia de Ciências de Lisboa (ACL) e a Academia Brasileira de Letras (ABL) já tentavam unificar a grafia em 98% do vocabulário geral. Só agora com a assinatura do governo Lula e a aprovação de Portugal o acordo ganhou força, concretizando o processo.
A reforma, porém, ainda divide opiniões. De um lado, estão os que acreditam que mudança é inútil e desnecessária, do outro, aqueles que garantem haver benefícios. ¨ Creio que vem com intuito de melhorar e isso provocará a internacionalização da língua ¨, diz Mogami, que também vê a mudança como sinal da evolução humana.
Para os defensores, o objetivo é facilitar o intercâmbio cultural entre as nações que falam português. Cerca de 230 milhões de pessoas poderão se beneficiar com o acesso a livros, materiais didáticos e documentos científicos que poderão circular entre os países sem necessidade de revisão da ortografia. Além da possibilidade de popularização da língua com apenas um Português oficial, a exemplo do que acontece com o Espanhol.
A reforma prevê, principalmente, a extinção do trema; mudanças no uso do hífen; abolição de acentos que diferenciam palavras como para e pára e de acentos agudos de ditongos como em assembléia; fim do acento circunflexo em algumas palavras com vogais repetidas como lêem e a incorporação do K, W e Y que já faziam parte do vocabulário, porém, não tinham o seu lugar definido (veja o quadro).
Entre as principais alterações na terra lusitana está o fim das consoantes mudas em palavras onde não são pronunciadas, a exemplo de acção que ficará ação e óptimo que passará a ser ótimo. Os portugueses também deverão suprimir o H como em húmido que vira úmido, como se escreve no Brasil.
O processo e o tempo de implementação deve variar em cada país. No Brasil a incorporação será de quatro anos e em Portugal pode chegar a seis anos. Para esclarecer dúvidas, a ABL oferece um serviço de respostas pela internet: www.academia.org.br
As palavras também evoluem
O que seria de um poeta sem as palavras ou das palavras sem um escritor? Ou o que seria da humanidade sem a escrita, que desde os tempos da caverna, tenta revelar a história através de traços e caracteres que formam idéias? Ah, e o que será da palavra idéia quando ela deixar de ser acentuada por força da reforma ortográfica em 2009? Mesmo perdendo o acento agudo, com certeza não perderá a força nem o significado.
A força da palavra sempre esteve além dos signos verbais, é atemporal, mutante e renovadora. Muitas vezes as mudanças na escrita ocorrem porque na língua falada e no cotidiano das pessoas já era comum. Pergunte quem sentirá falta dos dois pontinhos sobre o U que estão com seus dias contados. Como gente, assim as palavras também evoluem.
¨A língua que falamos atualmente, não foi sempre assim. Sofreu modificações ao longo do tempo. Como todo o organismo vivo, ela nasceu, cresceu e, se não quiser morrer, tem de continuar a adaptar-se aos novos tempos e a modificar-se com eles¨, analisa Maria de Fátima do Nascimento Dias, 44, professora e escritora portuguesa com vários livros de contos publicados.
Graduada em Línguas e Literaturas Modernas, com três pós-graduações no Ensino do Português como Língua Estrangeira, Comunicação e Expressão e em Ciências Documentais, ela defende que as diferenças da língua entre Brasil e Portugual enriquecem o idioma. ¨Ao contrário de alguns defensores da língua portuguesa, eu julgo que ela não precisa ser defendida. Ela defende-se a si própria. Repare que o português que se fala hoje em Portugal, é consequência da evolução da língua popular falada na parte ocidental da península. E vai continuar assim¨, diz.
De acordo com Fátima do Nascimento, tentar prender a língua a normas rígidas não ajuda na expansão do idioma, como o inglês que sendo flexível viajou o mundo afora. ¨ O latim era uma língua complicada e tão difícil que morreu. O que eu detestaria é ver morrer uma língua¨, comenta a professora e explica: ¨ Quando as mudanças são impostas, sinceramente, não acredito que perdurem. Toda transição tem de ser feita com muita boa vontade e de forma natural ¨, conclui.
- Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing.
- Matéria publicada na revista Look - janeiro/2009
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