Telefone-maravilha
Quem consegue viver sem ele?
por Mônica Carvalho Costa
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T odos os dias o mesmo ritual: ela arruma os cabelos, troca a roupa, pendura a bolsa nos ombros, pega a chave do carro e se esforça para não esquecer o companheiro fiel. O namorado? O cachorro? Não! O telefone celular. É assim que acontece na vida de milhares de pessoas que juram não conseguir viver sem ele. Chamado no Japão de keitai denwa (telefone portátil), na língua inglesa de handphone (telefone de mão), telemóvel em Portugal, móbiles (móvel) na Europa, sau kei (telefone-maravilha) em Hong Kong. Quase onipresente, o celular também já foi definido como acessório de moda, máquina de mão, bicho de estimação. Segundo dados do Wikipédia, na Dinamarca, Hungria, Noruega e Suécia, o telefone celular é chamado de nalle na língua sueca, significando ursinho de brinquedo, usado para designar aquelas pessoas que não vivem sem os aparelhos e se sentem inseguras quando não os acham, como uma criança que perde seu ursinho. Esse contigente de apaixonados são responsáveis por cerca de 2 bilhões de aparelhos em todo o mundo. Desde 2001, os celulares eram maioria em três continentes (Europa, África e Oceania) e 97 países. Em Portugal, por exemplo, existem mais telemóveis que habitantes portugueses. De cada cem chineses, 29 possuem um telefone-maravilha. Em agosto de 2003, o número de celulares no Brasil já havia ultrapassado o número de telefones fixos, com exceção de SP. No Japão, líder na tecnologia celular, só a NTT Docomo possui mais de 50 milhões de usuários.
Essa obsessão se deve ao fato do aparelho agregar múltiplos recursos tecnólogicos que facilitam a vida das pessoas, analisa a psicóloga, Midoria Komessu, 51, Aichi. ¨A tecnologia avança com a finalidade de tornar a nossa vida mais prática e dinâmica. São computadores, navegadores, e tantos aparelhos fantásticos, que seria impossível ficarmos alheios a eles¨.
Realmente é quase impossível encontrar alguém que não possua um celular. Ele tem sido projetado para atender a todas as idades e a todo tipo de gosto e estilo. A ssim como um relógio de pulso marca a personalidade de quem usa, esses pequenos notáveis estão fazendo a moda. Dos mais coloridos e arrojados aos discretos e moderninhos, enfeitados e carregados de chaveiros, eles se tornaram uma mania.
Mas, a cultura dos keitais não influenciou só no visual das pessoas, eles mexeram com a cabeça, os sentimentos e o comportamento da maioria. Seduziu crianças que desejam manter contato com os colegas de escola, aproximou namorados, impulsionou a vida de executivos. ¨O celular vem quebrar um pouco do distanciamento entre as pessoas, compensar o tempo escasso com a família ou o namorado, vem preencher os espaços vazios¨, acrescenta Midoria.
Contudo, a psicóloga adverte que essa não pode ser a única forma de comunicação. É maravilhoso recebermos um e-mail carinhoso, uma linda música, uma foto de quem amamos, porém, isso tudo está longe de substituir a pessoa real. ¨O contato direto e o diálogo são importantíssimos para o sustento de qualquer relacionamento¨, afirma.
Momentos em particular
Paula Inoue, 27, Nishio - Aichi, é um exemplo dessa ligação, literalmente falando. Aos 18 anos comprou seu primeiro telefone por causa do namorado (agora marido), Wellington. Em nove anos, trocou de aparelho meia dúzia de vezes, todos de cor rosa. Hoje, o seu keitai não serve apenas para alimentar o romance do casal, mas, principalmente como ferramenta de trabalho na tarefa como secretária. ¨Eu uso muito, não dá para ficar sem ele. Sem exageros, chego a enviar cerca de mil e-mails por semana, 50% são para meu chefe, 30% para minha melhor amiga, depois o marido, a irmã e o restante dos amigos¨, conta. Aliás, a jovem é também responsável pelo fato da irmã de 14 anos ter celular mesmo com a contrariedade da mãe.
Paula e a sua melhor amiga trocam e-mails até de madrugada e com o marido conversa pelo telefone mesmo dentro do próprio apartamento. ¨Minha mãe e minha irmã moram com a gente e às vezes o Wellington quer me dizer coisas em segredo, então, ele aproveita o celular. ¨
Em particular, e também por e-mail, ela certa vez alertou um amigo de trabalho sobre o zíper aberto da calça. ¨Estava realmente chamando a atenção, e fiquei constrangida em falar na frente de tantas pessoas que estavam ao nosso redor, então, não pensei duas vezes, o celular foi a solução. Depois ele me agradeceu. ¨ Entre as curiosidades que a jovem viveu com o companheiro de todas as horas, ela se lembra de ter carregado um canil com 12 cães (de pelúcia, é claro) pendurados no aparelho.
Unidos pela tecnologia
A família de Melina Goto Asada, 23, Anjo - Aichi, é unânime em responder que não dá mesmo para viver sem o keitai . Os pais Hiroshi, 46 e Mara, 42, admitem que controlam os filhos, Felipe, 11, e Amanda, 10, ligando a cada intervalo na fábrica. O marido Miquéias, 28, é quem gasta mais com a conta no final do mês por causa do trabalho de assessor. Mas juntos, aproveitam o chamado plano família para economizar nas ligações entre si.
Para eles, os atributos do aparelho fazem toda a diferença na hora de trocar por um novo modelo. ¨Sinto-me tentada a trocar sempre , mas, as vezes fica caro¨, lamenta Melina que gosta de fotografar e de consultar a previsão do tempo no telefone.
Ela se diverte contando que ficou desesperada por esquecer e deixar o celular para trás mais de uma vez. ¨Um dia, fomos assistir ao Homem-aranha na primeira sessão, pois era domingo e queríamos voltar logo para casa. Tive que esperar até a última sessão terminar para pedir licença, entrar e procurar o celular que havia esquecido no cinema¨. Melina ainda coleciona outras aventuras, um tanto desastrosas para o amigo tecnológico: centrifugou o celular na máquina de lavar, deixou-o banhar-se no vaso sanitário e atropelou o coitado com seu carro. ¨Dá para acreditar?¨, diz ela.
Remanescentes
Conheci algumas pessoas que não possuem telefone residencial, internet ou celular, elas não fazem questão de serem encontrados ou identificados. Ainda se utilizam de telefone público e enviam cartas. João (nome trocado), de Komaki - Aichi, garante que é possível levar a vida sem eles. Só não se sabe até quando estes remanescentes ainda continuarão imunes à febre tecnológica. ¨Essas coisas só representam mais gastos¨, diz.
Boas maneiras...
- Quando estiver ao volante, o telefone pode ser colocado no modo ¨dirigindo¨ que emite uma mensagem dizendo que você não pode atender a ligação porque está conduzindo o automóvel.
- Em reuniões e restaurantes, a etiqueta manda que desligue o aparelho ou coloque no modo ¨vibrador¨ para não chamar a atenção.
- no Japão, no ônibus ou no trem, constantemente são emitidas mensagens para evitar o uso do celular. Mesmo para quem não entende o nihongo, convém não falar no aparelho dentro desses veículos.
Multiuso
Além dos tradicionais atributos e das ferramentas mais populares, os telefones móveis têm incorporado funções adicionais, como: máquinas fotográficas, editores de imagens, browsers de internet, games, cartão-de-crédito, leitores de livros, tocadores de música, vídeo-conferência e televisão. Esta última, permite aos brasileiros no Japão assistirem ao Brasil, na telinha do telefone-de-mão, através da programação da TV Tarobá (repetidora da Bandeirantes no Paraná), transmitida para aparelhos da Vodafone e Docomo.
- matéria editada também na revista Japan Total
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