O VIZINHO MORA AO LADO
por Monica Carvalho Costa *
Saber quem mora ao lado e conhecer o seu vizinho mais profundamente pode melhorar a convivência nos condomínios e resultar numa grande parceria
Morar no Japão e se adaptar à cultura diferenciada, é sem dúvida um desafio constante para nós estrangeiros. Fazer dessa terra um lugar agradável para se viver e criar os filhos implica também em aprender a árdua tarefa de se relacionar e conviver com as diferenças de cada um. Pertencer à comunidade significa interagir com as pessoas e conhecer melhor os costumes da vizinhança. Por isso, há necessidade de encarar o vizinho como um parceiro e não como um estranho que mora ao lado.
O vizinho é aquele que mora mais perto, com quem dividimos os mesmos espaços nas escadas, no elevador, no parque, no estacionamento, contudo, muitas vezes ele não passa de um estranho ou até mesmo de um inimigo. Muitos sonham com a morte súbita do cachorro do apartamento ao lado, esperam chegar sempre na frente para conseguir a vaga para o carro, brigam pela limpeza do prédio, revoltam-se com as festas barulhentas que terminam depois das nove da noite, e esperam que os vizinhos nunca ultrapassem a medida límitrofe que os separam.
Entre vizinhos estrangeiros, a primeira barreira que surge é o idioma. ¨Estar ilhado sem entender os costumes, os valores, sem dominar o idioma é uma das experiências mais pesadas para o estrangeiro¨, diz a psicóloga e consultora brasileira Edina Bom Sucesso. Quem já não sentiu a dificuldade de se comunicar na hora de esclarecer qualquer mal entendido? Parece que o problema fica ainda maior. È o que sente Maria Aparecida Kojima, 44, que passou situações constrangedoras por não entender a língua. Ela conta que seu filho João Vitor de 6 anos, já foi vítima de preconceito por ser estrangeiro - ¨Ele foi com vários amiguinhos visitar uma menina da escola que estava doente (vizinhos japoneses no mesmo bloco). A mãe não permitiu que ele entrasse, voltou para casa chorando e eu não sabia o que fazer, nem o que dizer àquela mulher¨.
Não compreender a língua, foi também o motivo que distanciou, um bom tempo, a japonesa Sakai Masako, 56, dos brasileiros de seu condomínio. ¨No início, eu pensava: se eles falarem comigo não vou entender nada, então, nem cumprimentava. E haviam tantas coisas diferentes para nós, como fazer churrasco na varanda, ficarem até tarde da noite reunidos conversando. Eu pensava: como vou me socializar com eles¨. Porém, como funcionária do Departamento do Bem-Estar Social, em Aichi, Sakai Sam percebeu que precisava romper com essa distância se quisesse ajudar os estrangeiros - ¨Um dia eu resolvi tomar a inicitiva, pois, mesmo não sabendo falar a língua, podia fazer gestos. Mesmo que você não entende dá pra você sentir, observar o sorriso¨.
De acordo com Edina, que realiza palestras em diversos países sobre relações interpessoais e qualidade de vida, é impossível evitar conflitos e pretender que os relacionamentos sejam totalmente harmoniosos entre vizinhos estrangeiros. Os hábitos de vida são diferentes e deixam brechas para desentendimentos. ¨É preciso conhecer o outro, entender seus valores e costumes, pois a força da cultura não é para ser criticada ou avaliada mas entendida e respeitada¨. Membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Qualidade de Vida Nacional, no Brasil, Edina reforça a tese de que o ser humano tende a supervalorizar sua cultura e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos demais - ¨ a diversidade cultural pode dificultar a convivência entre vizinhos e, infelizmente, as diferenças e os preconceitos podem levar à incompreensão, ao distanciamento ou à hostilidade.¨
Quando o vizinho é inimigo Incompreensão e hostilidade foi o que conheceu Alice Murakami, 40, que está há 14 anos no Japão. Ela mora com o marido e os dois filhos, num condomínio em Higashiura, Aichi, onde concentram-se cerca de 1.140 famílias, das quais 229 são formadas por estrangeiros. São oito anos morando no mesmo apartamento, vizinha de frente a uma complicada família japonesa. Segundo Alice, os seus vizinhos muitas vezes rompem o silêncio noturno com gritos e pancadarias, frutos das brigas rotineiras entre o filho jovem, a mãe e o pai. ¨Meu filho, chegou a ficar com traumas, assustado não conseguia dormir. Uma vez liguei pra polícia porque fiquei preocupada com a mulher. Já tinha visto ela machucada no dia seguinte depois de uma briga e o filho repetia que ia matá-la. Mas, a polícia disse que nada podia fazer.¨ Alice acredita que essa situação de estresse dentro de casa, muitas vezes tem levado a vizinha a ter comportamentos incomprensíveis. ¨Ela implicava com tudo, não podíamos conversar na escada ou na frente do prédio, meus filhos não podiam brincar com brinquedos eletrônicos, amigos não podiam me visitar, não importava a hora, lá vinha ela gritar na varanda ou bater com cabo de vassoura como sinal de que estávamos incomodando. Até o dia em que encontrei meu filho chorando na escada porque ela tinha brigado com ele, pelo simples fato de estarem conversando enquanto me esperavam para abrir a porta de casa. E isso aconteceu no meio do dia. Fui ao encontro dela e disse-lhes umas boas verdades. De lá pra cá, está quieta, nem me olha mais.¨
Sakai Sam, também presenciou discussões entre vizinhos brasileiros e japoneses. Certa vez foi chamada para intermediar uma conversa com duas vizinhas que estavam brigando por causa de problemas na varanda. ¨A brasileira lavava os tapetes e os pendurava para secar na grade da varanda sem torcê-los, o que acabava molhando os futons da japonesa que os colocava todos os dias para tomar sol. Até o síndico foi chamado para resolver a questão.¨ A auxiliar do Departamento do Bem-Estar Social, diz que já enfrentou dificuldades com brasileiros que não respeitam as regras do condomínio, como jogar o lixo no lugar e dia certo. ¨Você fala pra pessoa que não é o dia de jogar aquele lixo e ela finge que não entende ou vira as costas pra você. Fico sem jeito e não consigo falar com a mesma convicção com que chamaria a atenção de um japonês que estivesse fazendo a mesma coisa.¨- desabafa Sakai.
Como consultora dos brasileiros na prefeitura de Higashiura, Alice Murakami também escuta muitas histórias ocorridas na vizinhança e aconselha muita gente sobre problemas com os vizinhos. As reclamações mais comuns dos brasileiros em relação aos japoneses se referem aos animais de estimação, principalmente cães e gatos, e o mau cheiro nos apartamentos. Já os japoneses reclamam de problemas nos estacionamentos, como carros mal estacionados ou abandonados e adolescentes que ficam brincando até tarde na rua, conforme nos relata Alice.
Os conflitos existem e não podem ser ignorados. Por outro lado, eles não podem ser motivos para o desestímulo ou o descrédito das possibilidades de relacionamento saudável entre estrangeiros. ¨Nós não podemos generalizar. Os japoneses, e também nós brasileiros, precisamos entender que somos um mesmo povo, mas cada pessoa é um ser individual, com pensamentos e idéias diferentes uns dos outros. Ou seja, um brasileiro não é igual ao outro, só porque é brasileiro.¨ argumenta Maria Aparecida Kojima.
Edina Bom Sucesso diz que o respeito mútuo começa por entender que todos têm o direito a expressar a própria opinião. Em contrapartida, tem-se, igualmente, que respeitar o direito do outro em discordar e pensar de forma diferente. ¨Se os vizinhos entendem que, tanto as diferenças no modo de viver e de pensar, quanto a diversidade cultural não precisam resultar em distanciamento ou conflito. Podem, por outro lado, ensinar modos criativos de vida e indicar melhores caminhos para a solução de problemas¨, complementa a psicóloga.
Quando o vizinho é solidário Num país estrangeiro, onde as famílias se vêem distantes, o vizinho se torna alguém ainda mais especial. É com ele que se pode contar em primeiro lugar para atender as necessidades mais imediatas, principalmente, quando alguém da família adoece. Quem pode ajudar na hora que acabar o açúcar, ou quando precisar de alguém para ficar com o animal de estimação enquanto viaja? Há vizinhos mais chegados que irmãos e que não medem esforços para ajudar. E isso, não é uma possibilidade apenas entre pessoas das mesma nacionalidade. Apesar das diferenças culturais e da dificuldade da língua, algumas pessoas tem provado que brasileiros e japoneses podem chegar a esse nível de amizade.
¨Me sinto imensamente agradecida pelas vizinhas japonesas amigas que eu tenho. São gente boa. Elas me ajudam com os papéis que não entendo, para tirar dúvidas da escola. Teve uma que me ajudou muito quando meu filho precisou fazer uma cirurgia, me levava para o hospital, vinha me visitar, era como uma mãe pra mim aqui no Japão¨ - conta Alice Murakami. Além disso, Alice garante que o problema que viveu com sua vizinha de frente, atraiu a atenção de outros japoneses que se solidarizavam com ela, dando apoio moral e incentivando-a buscar informações sobre os seus direitos como moradora.
Arlindo Takashi e Solange Nakatu, que moram num condomínio de 74 apartamentos em Nishio, Aichi, dizem que foram muito bem recebidos pelos japoneses, especialmente pelo vizinho do segundo andar. ¨Toda vez que me via, ele me convidava para entrar na sua casa e, isso é muito raro. Ele me deixa à vontade. Hoje, tudo que eu preciso recorro a ele¨, diz Takashi. Como auxiliar de síndico, líder de sua entrada no bloco de apartamentos, Takashi viveu experiências interessantes no último ano. Ele fala com entusiasmo das mudanças que ocorreram no condomínio nestes quatro anos em que moram lá. Haviam muitas reclamações dos japoneses em relação aos estrangeiros: barulho fora de hora, carros que eram desmontados e abandonados, lixo jogado de qualquer jeito. Mas, aos poucos foram sendo tomadas algumas medidas que conscientizaram os moradores de que cada um tinha que fazer a sua parte no condomínio. Entre essas medidas foram adotadas reuniões periódicas para discutir as necessidades do condomínio e apresentar os novos vizinhos, além de uma festa anual de confraternização entre os moradores. ¨A gente percebe que eles fazem questão de que todos se conheçam e as festas contribuem para isso, para que haja mais integração entre os moradores. Sempre fizemos churrasco como comida brasileira, mas ano passado, Solange fez pastel. Eles adoraram.¨ conta Takashi.
Exemplos como esses mostram que, vizinhos solidários podem, conjuntamente, enfrentar e resolver problemas da comunidade, fortalecendo as relações e proporcionando um ambiente mais saudável para todos os moradores. Como analisa Edina Bom Sucesso, ¨se os adultos forem modelos de cooperação, as novas gerações exercerão, desde cedo, a solidariedade e aprenderão que o diálogo e o entendimento continuam sendo as melhores estratégias para equacionar as diferenças de percepção e os conflitos inevitáveis na convivência permanente.¨
Quando o vizinho é parceiro Quando a solidariedade se estende e nasce a amizade, surge também a cumplicidade e a parceria de pessoas que se unem por objetivos comuns. Todos querem um lugar tranquilo e seguro para se morar, mas poucos pagam o preço da perda da autonomia individual para viver a coletividade. Especialmente no Japão, onde as ameaças de terremotos, maremotos e tufões, sempre assustam, ter o vizinho como parceiro é uma garantia de encontrar apoio em momentos difícieis.
Foi pensando nisso, que um grupo de amigas e vizinhos, começaram a se unir para criar um plano, caso venha a acontecer o esperado terremoto Tokai. Uma delas viu uma reportagem na televisão, na época do terremoto de Kobe, que mostrava uma pequena cidade que foi muito atingida. Apesar da catástrofe, ninguém havia falecido porque todos os vizinhos se conheciam e depois dos tremores eles começaram a procurar uns aos outros, até se certificarem que todos estavam bem. Alguns foram soterrados, no entanto, como haviam vizinhos que sabiam onde eram cada cômodo da casa, as informações ajudaram o resgate a socorrê-los rapidamente. Maria Aparecida, Alice, Sonia, Dirie, Elizete, Neusa, Mayumi, Cláudia, e outras vizinhas, maridos e filhos se organizaram para estabelecer uma rota de fuga e um sistema de ajuda mútua. ¨Caso o terremoto aconteça e eu não consiga chegar até a escola de meus filhos, se alguém do grupo já estiver lá trará meus filhos consigo¨, diz Alice. Maria Aparecida, acha importante essa união para que ninguém fique perdido ou desesperado - ¨é bom saber que, nessas horas, teremos ao nosso lado alguém que fala a nossa língua e outras que falam bem o nihongo. Com certeza, teremos mais força para suportar as adversidades¨.
Alguns dos integrantes desse grupo, vêm participando de palestras e treinamentos, junto com os japoneses e a Equipe de Voluntários para os Dias de Calamidades Públicas de Aichi. No mês de agosto, eles participaram de um treinamento oficial, que teve a presença de bombeiros, polícia militar, forças armadas, exército da cruz vermelha e outros órgãos públicos e privados que se mobilizaram para treinar pessoas comuns, moradores da comunidade. Para os líderes de voluntários japoneses, a presença de brasileiros nesse trabalho é essencial para ajudar a outros brasileiros, caso ocorra alguma catástrofe.
A psicóloga e consultora, Edina Bom Sucesso defende que as relações harmoniosas entre vizinhos devem ser vistas como fator de sobrevivência e proteção mútua e que seria apropriado estabelecer vínculos também nos bons momentos, não só na ocorrência de problemas, no surgimento de doenças, nos desastres, nas calamidades. ¨Ser solidário apenas no sofrimento é perder a oportunidade de compartilhar momentos agradáveis que precisam ser celebrados e são formas de praticar a parceria, base para a participação em projetos comuns.¨ completa Edina.
O que fazer para melhorar o relacionamento entre os vizinhos Para Edina, quem tem consciência da necessidade de conviver bem e de modo pacífico, pode, por exemplo, tomar a iniciativa de procurar o novo vizinho e oferecer-lhe apoio no dia da chegada, mostrar interesse autêntico por seus problemas, interessar-se pelo estado de saúde dos familiares. E isso vale para japoneses e estrangeiros. Solange Nakatu também acredita no poder da inciativa de aproximação e argumenta - ¨ Eu acho os japoneses também são calorosos, são poucos que rejeitam sua atenção. Eu conheci muitos japoneses que queriam se relacionar, eles querem até aprender sobre o Brasil¨.
Alice Murakami confirma essa tese - ¨Pergunte para a maioria dos brasileiros que dizem não se relacionar com japoneses, se eles tentaram se aproximar. Se sim, devem continuar tentando, pois, de cada 10 pelos menos oito japoneses querem fazer amizade com estrangeiros. E é uma oportunidade de ensinarmos a eles como lidar com gente de diferentes culturas, pois, estamos acostumados a isso no Brasil. Eles não. Há pouco tempo o Japão começou a receber estrangeiros ocidentais em tão grande quantidade para residir aqui. Nós somos os invasores, devemos respeitá-los, mas, também fazê-los conhecer melhor a nós brasileiros e a nossa cultura.¨ finaliza Alice.
A japonesa do Depto do Bem-Estar Social, Sakai Masako, defende o ponto de vista de que todos deveriam se cumprimentar, mesmo sem saber o idioma. Para ela um sorriso, um gesto pode valer mais que mil palavras. Além disso, reforça o fato de que brasileiros e japoneses deveriam buscar juntos, caminhos que diminuam a distância e aumentem os laços de fraternidade entre eles. De acordo com Arlindo Takashi, ninguém precisa saber cem por cento do idioma para se comunicar - ¨você só precisa do básico, só isso já facilitará a sua convivência, e conhecer um pouco da cultura deles também ajudará. Os japoneses quando se mudam para um novo local, têm o costume de vir e se apresentar para cada vizinho da entrada e depois, quando vão embora se despedem de você agradecendo ou pedindo desculpas por algum inconveniente. Será que não poderíamos aprender a fazer o mesmo?¨.
A generosidade com o outro, segundo a psicóloga Edina, expressa-se em pequenos gestos, no convite para jantar, em frases apoiadoras, presentes simbólicos, cuidados mútuos, atenção e interesse em agradar as crianças, tratar as pessoas pelo nome, acolher os idosos, manifestar afeto. ¨Evidentemente que nem sempre a nossa conduta e a nossa intenção encontrarão acolhimento. Alguns vizinhos preferem manter a distância e isto deve ser respeitado. Mas é preciso tentar estabelecer vínculos, mostrar-se aberto e disponível, e assim faremos a nossa parte, encontrando resposta positiva por parte de alguns. Pode-se notar que laços de vizinhança podem ser mais fortes que os de parentesco e boas relações com os vizinhos promovem vínculos na comunidade, sinalizando a esperança de um mundo mais solidário, e mais cooperativo, fundamentado nos laços de afeto e amizade.¨
10 dicas para aprofundar o seu realcionamento com os vizinhos:
- sempre que chegar um vizinho novo no prédio ou na sua entrada ou ao lado de sua casa, tome a iniciativa de se aprensentar e dar as boas-vindas ao novo morador
- procure saber o nome de cada um deles e passe a cumprimetá-los sempre que os encontrar
- ofereça-se para ajudar em pequenas necessidades, como carregar as sacolas de compras ou ajudar com as crianças na escada
- para os velhos vizinhos, ainda há tempo de reconquistá-los, quem sabe oferecendo um gostoso bolo de receita brasileira ou convidando-os para a próxima festa de aniversário dos filhos
- participe das reuniões do condomínio para tratar de assuntos pertinentes a todos
- participe da limpeza geral do prédio, que além de zelar pelas instalações do local, oferece uma boa oportunidade para conhecer os moradores e conversar com eles
- participe dos treinamentos contra terremotos realizados na comunidade
- zele pela ordem e cumprimento das regras do condomínio para que todos possam sair lucrando
- respeite o limite da individualidade de cada um, não invadindo a privacidade alheia
- aprenda o idioma, conheça a cultura e não desista de investir nos bons e duradouros relacionamentos...
- Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Reportagem publicada pela Revista Look (Japão)
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