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Trabalho Voluntário


A FORÇA DO TRABALHO VOLUNTÁRIO

por Monica Carvalho Costa *

Conheça as histórias de gente solidária que se doa para o trabalho voluntário, sem esperar nada em troca.

Cristina dá aulas de alfabetização numa escola infantil, Nanami leva pessoas carentes ao médico, a psicóloga Neusa administra um serviço de saúde para dekasseguis, Akihiro dá treinamentos para sobrevivência em caso de calamidades e terremotos, Kawabe atua como mediador entre moradores de um condomínio, Sachiko e Masako editam um informativo para estrangeiros...O que todos eles têm em comum? São voluntários. Toda semana dedicam várias horas do dia ao trabalho voluntário, em prol dos brasileiros que rsidem no Japão.

Num mundo mais tecnológico, competitivo, violento e mais sujeito à calamidades, parece um paradoxo dizer que as pessoas estão mais propensas a ajudar aos outros, mas essa é a tendência que move o indivíduo moderno. Segundo as pesquisas, o cidadão de hoje, é alguém que se importa com o próximo e que busca soluções para melhorar a qualidade de vida ao seu redor. Como Margarita Barrientos, que em meio à gravíssima crise argentina, e mesmo vivendo numa favela com 12 filhos, criou um restaurante popular que alimenta diariamente 1.600 crianças. Seu esforço voluntário foi exibido na mídia internacional como exemplo para todos.

O voluntariado, gente que presta serviços para os outros sem receber nada em troca, é hoje um grupo que cresce a cada dia em muitos países. Cerca de 28% da poupulação mundial presta algum tipo de trabalho voluntário, de acordo com a pesquisa ¨Doação e Trabalho Voluntário no Brasil¨. A pesquisa também mostra que 31% dos voluntários no Brasil são jovens, um número que cresceu nos últimos cinco anos de 7 para 34 por cento. No Japão, segundo dados da Japan Broadcasting Corporation em 1998, mais de 26% dos adultos graduados estão ou estiveram voluntariando. Na Alemanha um em cada três adultos praticam o voluntariado e na Coréia do Sul cerca de 3.900.000 pessoas doaram 451 milhões de horas para o trabalho voluntário somente em 1999. São milhões de pessoas que dedicam horas e horas para trabalhar em prol de causas sociais, ambientais e de pessoas carentes.

O voluntariado gera, em diversos países desenvolvidos mais de 5% do PIB em bens e serviços sociais. Nesses países é uma atividade altamente valorizada e, presidentes e primeiros-ministros costumam prestar até homenagens. Grandes organizações, nascidas por iniciativas voluntárias se tornaram líderes em causas mundiais, como Greenpeace, Anistia Internacional, Médicos sem Fronteiras e outras, muitas delas obtendo vários Prêmios Nobel da Paz.. Por isso, os especialistas dizem que não se pode menosprezar o potencial de uma só pessoa no esforço voluntário.

O perfil do voluntário caracteriza-se por homens e mulheres comuns, de todas as idades, com ou sem profissão, que dedicam parte de seu tempo, de sua vida, de seu dinheiro, para atividades voluntárias em benefício da comunidade. Mas, porque fazer trabalho voluntário? As duas respostas líderes do voluntariado são: ¨o desejo de ajudar aos outros¨ e ¨sentir-se realizado como pessoa¨. A psicóloga Neusa Eniko Miata , diretora executiva do Disque-Saúde analisa - ¨Em geral, são pessoas de bem com a vida. Gosto de usar uma expressão em japonês: alguém com ¨yoyuu¨ no coração, ou seja, essas pessoas tem no coração um espacinho a mais que pode ser preenchido pelo próximo¨.

Fomos conhecer exemplos de gente comum que está fazendo diferença na comunidade em que vive. Brasileiros e japoneses que desenvolvem o trabalho voluntário com o objetivo de melhorar a vida dos dekasseguis no Japão.

Cristina Midori Takeda, 37, brasileira, solteira, professora infantil, 14 anos vivendo no Japão

No ano 2000, Cristina se deparou com uma difícil situação: estava com sérios problemas de saúde que a impediam de continuar trabalhando em fábrica. Estava decidida a ir embora para o Brasil quando recebeu o convite para ajudar temporariamente numa creche de crianças brasileiras. Cristina diz que não tinha experiência mas, resolveu dar as mãos porque viu a necessidade daquelas crianças - ¨eu pensava que era só olhar, cuidar da higiene, mas eu vi que elas precisavam crescer, em todos os aspectos, então comecei a investir na alfabetização, na educação daquelas crianças¨. Hoje, a creche virou uma escola e o que era temporário, virou sua vida. Cristina além de cuidar das crianças também ajuda no transporte, nas compras, na preparação do cardápio e onde mais precisarem dela. Sua irmã Cleide Takeda, de 34 anos, também ajuda nas atividades da escola.¨Se a gente não fizer isso, a escola não tem como sobreviver e eu não quero que isso acabe. Vale a pena você se sacrificar, se doar, porque o dinheiro não é o mais importante, mas, o fruto do seu trabalho, o resultado no rostinho e na vida das crianças¨ - afirma Cristina.

Nanami Tame Tomé, 48, brasileira, casada, tradutora, 14 anos no Japão

Desde 1992, quando Nanami se dispôs a ajudar os brasileiros que não falavam o nihon-go, ela não parou mais de ser solicitada para levar pessoas ao médico, fazer traduções em hospitais, delegacias e até mesmo perante juízes. Enfrentou situações difícieis, algumas constrangedoras e outras até engraçadas. ¨Nesses anos todos, aprendi muito, vi muitas coisas, foram muitas experiências. Me lembro de uma situação muito difícil, quando eu tive que traduzir para um pai que seu filhinho podia morrer a qualquer momento. Eu me colocava no lugar do médico para dar aquela notícia e no lugar do pai para recebê-la. E houve uma outra vez que foram me buscar em casa à noite, desci as escadas assustada e me deparei com um batalhão de policiais da tropa de elite, todos bem armados. Logo na frente o capitão me aguardava para traduzir para um brasileiro que havia sido o pivô de tudo aquilo. Foi um sufoco traduzir os policiais bravos porque o brasileiro estava mentindo¨, conta Nanami. Para a tradutora voluntária, o fato de ser filha de imigrante no Brasil, onde os japoneses se ajuntaram e se ajudaram, fez com que ela desejasse o mesmo com os dekasseguis no Japão - ¨Se houvesse mais união, seríamos uma comunidade mais forte, poderíamos conseguir mais direitos, evitar a delinquência juvenil, por exemplo, ou a solidão que afeta tanta gente. Eu luto para fazer a minha parte. Imagino como meus pais sofreram no Brasil sem dominar a língua, não é diferente para os brasileiros no Japão. Se para mim que sei um pouquinho é difícil, como é para quem não sabe nada?¨. Além de seu esforço voluntário, Nanami muitas vezes arca também com os custos da consulta porque as pessoas não tem como pagar.

Neusa Eniko Miata, 37, brasileira, psicóloga e diretora executiva, 14 anos no Japão

Neusa veio para cá como bolsista, apoiada pelo governo japonês em 1992. Ainda na faculdade percebeu a carência dos dekasseguis em relação à saúde. Foi então que, ela e o médico Sérgio Branco tiveram a feliz idéia de criar as ¨Caravanas da Saúde¨ que viajavam pelo Japão levando informações e saúde para os brasileiros. O projeto que foi um grande sucesso, fruto do trabalho voluntário dos profissionais da saúde, deu origem ao sistema de atendimento por telefone, o conhecido Disque-Saúde, onde Neusa atua como psicóloga e diretora executiva. Até agosto de 2004, o Disque-Saúde já havia atendido mais de 32 mil pessoas desde a sua implantação em julho de 96. São mais de 300 pessoas atendidas todos os meses por profissionais da medicina clínica, pediatria, ginecologia, psicologia, psiquiatria e enfermagem.¨Eu comecei ajudando na época do terremoto de Kobe, acompanhei vários brasileiros que sofreram com aquela situação, alguns perderam a família. Depois tive a oportunidade de ajudar na prefeitura e na polícia de Osaka, sempre acompanhando os brasileiros. Com o Disque-Saúde não consegui mais me livrar do serviço voluntário, tornou-se a minha vida.¨ Neusa garante que a sua motivação é poder ajudar aos outros, sem esperar nada em troca - ¨não posso curar, medicar, mas, se o que eu posso fazer vai ajudar, fico feliz.. Enquanto tiver alguém precisando vou continuar. Isso faz um bem imenso¨, finaliza a psicóloga.

Makino Akihiro, 43, japonês, casado, palestrante

Foi depois do terremoto de Kobe que Akihiro sentiu-se motivado a fazer alguma coisa que pudesse livrar as pessoas de maiores sofrimentos na hora do terremoto. ¨Eu pensava que sozinho poderia salvar a esposa e os filhos, mas, e se eu ficasse impossibilitado de me mover? como a minha família se salvaria? E como poderiam se salvar os idosos, as crianças, os deficientes, os estrangeiros que não conhecem as regras? Então, elaborei um plano para treinar essas pessoas mais ¨frágeis¨¨, explica Akihiro. A princípio, ele começou o treinamento com a família, depois com os vizinhos, o bairro, a cidade e atualmente, suas palestras e treinamentos de sobrivivência em calamidades e terremotos são conhecidas em todo o Japão. O trabalho voluntário se estendeu para a rede mundial de computadores e hoje, o país inteiro é mobilizado na troca de informações e experiências, ajudando milhares de pessoas.

Há um ano, Akihiro está realizando este trabalho voluntário com brasileiros em Aichi e suas experiências o fizeram rever algumas posições - ¨Hoje tenho uma visão diferente, para mim não existem pessoas frágeis, existem pessoas despreparadas. Uma criança, um idoso ou um deficiente bem treinado pode ser mais forte que uma pessoa normal. E não existe diferença entre brasileiros e japoneses. Saber o que precisa ser feito e não fazer é do ser humano e não de uma raça.¨ Dividindo seu tempo entre o trabalho remunerado numa distribuidora de frutas e legumes e o serviço voluntário, Akihiro, sonha com a possibilidade de ver uma comunidade que não faz distinção de raças, onde todos são bem treinados e têm corações solidários. ¨Uma comunidade que têm consciência das calamidades imprevisíveis, onde todos estão preparados, é uma cidade forte. Unida para socorrer e para reconstruir. Defendo sempre o esforço de grupo, não uma ação individual, mas, uma comunidade onde um ajuda o outro e vice-versa.¨ complementa o palestrante.

Kawabe Kunihiro, 53, japonês, casado, síndico

Há 10 anos atrás, como síndico no condomínio em que mora, Kawabe ficou intrigado com as reclamações que ouvia dos moradores com relação aos brasileiros que quebravam as regras de moradia e, começou a pensar numa maneira de resolver a situação. ¨Havia muita briga e confusão. Para os japoneses, as regras do condomínio são lógicas mas, os brasileiros encontravam dificuldades para se adaptarem, então resolvi intervir e me fazer de mediador, na busca pela harmonia no condomínio¨, conta Kawabe.

O síndico, que não tem hora determinada para exercer o trabalho voluntário, não poupa esforços para conseguir ajudar os estrangeiros do condomínio. Pediu na prefeitura de Nishio que muitos documentos fossem traduzidos para o português, conseguiu mais vagas para os carros nos estacionamentos vizinhos porque percebeu que as famílias brasileiras possuiam mais de um carro, colocou brasileiros na diretoria do condomínio, criou um grupo de 60 voluntários e até hoje promove diversas atividades para aproximar brasileiros e japoneses. ¨Fiquei chocado ao saber que quando criança no Brasil, alguém ouvia ¨vocês são japoneses voltem para o Japão¨ e, quando chegaram aqui ouviram ¨vocês são brasileiros voltem para o Brasil¨. Isso não é certo. Espero que enquanto estejam aqui, sejam bem-vindos e vivam em harmonia na comunidade¨, argumenta Kawabe. Ele espera, através de seu trabalho, derrubar as indiferenças que ainda existem entre nativos e estrangeiros e afirma que sua satisfação no serviço voluntário resulta da amizade que fez com muitos estrangeiros, durante todos esses anos.

Sachiko Fujisawa, 51, casada, e Masako Okada, 47, editoras do jornal comunitário

Sachiko Fujisawa supreendeu a todos com seu pioneirismo e iniciativa voluntária ao promover festas para crianças estrangeiras no seu bairro, a maioria alunos da escola primária. Segundo ela, seu primeiro objetivo era apromixar seu filho mais novo de outras culturas - ¨eu queria que ele tivesse contato com gente de todo o mundo, conhecesse a comida, as brincadeiras de outros países. Assim conheci Okada sam que levava seu filho nos encontros¨. Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma brincadeira foi se tornando algo grandioso e culminou com a criação do Departamento Internacional da cidade de Obu, Aichi. Depois surgiu o Comitê, formado por voluntários e funcionários da prefeitura, para discutir assuntos relacionados aos estrangeiros e por último, veio a publicação do jornal comunitário ¨Hohoemi¨ (antes chamado ¨Chikiu Go¨).

O jornal, produzido de forma simples e sem muito recursos, conta com a participação de cinco voluntários e é traduzido para cinco idiomas: português, inglês, espanhol, chinês e japonês. Masako Okada é desenhista e ajuda na elaboração das edições, porém, não hesita sair distribuindo o jornal pelas escolas e fábricas. ¨No início, foi difícil deixar o jornal em algumas fábricas. Haviam alguns empreiteiros que não queriam que seus funcionários estrangeiros fossem informados, alertados, porque poderiam desejar mudar de emprego ou fazer exigências. Mas, houve um que disse que deveríamos receber os brasileiros de braços abertos, como retribuição ao que os antecedentes fizeram no Brasil. Assim, continuamos a insistir¨, relata Okada.

Para as editoras, o prazer de realizar o serviço voluntário está na alegria de ajudar os estrangeiros a viverem melhor na comunidade e no prazer de fazer amigos. ¨Esse trabalho acrescentou muito nas nossas vidas. Aprendemos a lidar com o computador, a internet, e, principalmente conhecemos muitas pessoas¨, afirma Fujisawa.

Como desenvolver o trabalho voluntário (na opinião de nossos entrevistados)

¨Se tiver alguma coisa que queira fazer, não se precipite a dizer que não consegue, mas disponha-se a fazer. Mexa-se! Sempre vai ter alguma coisa que você pode fazer pelo outro. Não existe ninguém inútil.¨ Sachiko Fujisawa

¨Se você não se sente capaz de iniciar alguma coisa, procure alguém que já está fazendo um trabalho voluntário e una-se a ele. O importante é ir, ver e fazer uma tividade que combine com você¨. Masako Okada

¨Tem gente que diz assim: eu não vou lá porque tem muito brasileiro. Se você é um daqueles que não gosta de se identificar como brasileiro fica difícil você fazer alguma coisa. Pois, nós brasileiros precisamos nos ajudar, se unir, extamente como nossos pais e avós fizeram no Brasil. Um socorria ao outro para que ninguém passasse necessidade alguma.¨ Nanami Tomé

¨O serviço voluntário você faz para pessoas e não para uma raça. Pessoas têm sentimentos e necessidades¨. Kawabe Kunihiro

¨Num país sujeito à catástrofes, todos precisam ter corações solidários e desejar ajudarem uns aos outros.¨ Makino Akihiro

¨Se você se doa esperando um retorno, você não vai conseguir levar isso por muito tempo. Faça dentro de suas limitações, procure um equilíbrio para conciliar todas as responsabilidades da sua vida. Algumas vezes você não ouve nem um muito obrigado, no entanto, se você se colocar no lugar daquela pessoa, como alguém que está precisando de ajuda, isso deixará você agradecida.¨ Neusa Miata

referências

Departamento Internacional de Obu – fone: 0562 47 2111 (atendimento em japonês e inglês)

Jornal Hohoemi – informações pelo fone: 0562 84 4639 (atendimento em português)

Grupo de Voluntários para dias de calamidades (palestras e treinamentos) – informações pelo fone: 0563 – 58 1241 (de 2 a . a sexta das 10hs às 14hs, atendimento em português)

Escola infantil brasileira em Hekinan – fone: 0566 46 3722

 

  • Monica Carvalho Costa é jornalista e profssional de marketing. Reportagem editada pela Revista Look

 

 
 

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